Compreender Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde
Cada sistema de cuidado tem uma racionalidade própria. Ela vem de aspectos culturais que, em muitos casos são milenares e até incompreensívels na cultura ocidental e na racionalidade médica. Vinte anos de investigação trouxe o livro “Racionalidades Médicas”, que á um ponto de contribuição importante para a Saúde Coletiva no Brasil, no apoio à compreensão da diversidade dos sistemas médicos e das práticas de Cuidado. Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: estudos teóricos e empíricos, foi organizada por Madel Therezinha Luz e Nelson Filice de Barros e publicada em 2012 pela CEPESC, IMS-UERJ e ABRASCO
Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde — compreender o lugar do Reiki no cuidado
O que são Racionalidades Médicas?
O conceito desenvolvido por Madel Luz procura criar uma forma de estudar diferentes sistemas médicos sem partir automaticamente do princípio de que um deles deve servir como modelo para avaliar todos os outros.
A proposta inspira-se no conceito de tipo ideal de Max Weber. Em vez de começar por afirmar qual sistema é verdadeiro ou superior, procura-se compreender como cada sistema organiza internamente a sua visão do ser humano, da saúde, da doença e do tratamento. (Lappis)
Segundo esta abordagem, uma racionalidade médica complexa pode ser analisada através de seis dimensões:
1. Morfologia humana — como é compreendida a estrutura do ser humano.
2. Dinâmica vital — como se entende o funcionamento da vida e do organismo.
3. Doutrina médica — como são definidos saúde, doença, equilíbrio e desequilíbrio.
4. Sistema diagnóstico — como se identifica e interpreta o estado da pessoa.
5. Sistema terapêutico — que métodos são utilizados para promover tratamento ou recuperação.
6. Cosmologia — qual a visão mais ampla do ser humano, da natureza e do universo na qual esse sistema está inserido. (Lappis)
Este modelo permitiu aos investigadores comparar, entre outras, a medicina ocidental contemporânea, a Homeopatia, a Medicina Tradicional Chinesa, a Medicina Ayurvédica e a Medicina Antroposófica. O mais interessante não está necessariamente em determinar qual destas abordagens é melhor, mas em compreender que cada uma pode construir o seu conhecimento a partir de pressupostos diferentes.
Nem todas as práticas integrativas são uma racionalidade médica, onde fica o Reiki?
Esta distinção é particularmente importante quando falamos de Reiki, pois uma prática integrativa não precisa de constituir, por si só, uma racionalidade médica completa. O Reiki possui uma conceção própria de prática, de cuidado, de equilíbrio e da relação entre praticante e recetor, mas não apresenta necessariamente todas as seis dimensões que caracterizam, segundo este modelo académico, um sistema médico completo.
Assim, talvez seja mais adequado compreender o Reiki como uma prática integrativa de cuidado, em vez de tentar transformá-lo numa medicina.
O livro já falava especificamente de Reiki
Um dos aspetos mais interessantes desta obra é encontrarmos referências explícitas ao Reiki.
No capítulo dedicado à investigação e institucionalização das Práticas Integrativas e Complementares no SUS, Charles Tesser observa que várias práticas utilizadas nos serviços públicos brasileiros permaneciam ainda pouco estudadas. E utiliza precisamente o Reiki como exemplo.
Segundo o autor, dados então disponíveis do Ministério da Saúde mostravam que o Reiki aparecia com frequência nos municípios que declaravam disponibilizar alguma prática integrativa. Apesar dessa presença nos serviços, havia ainda muito pouca investigação académica dedicada à prática. O autor escrevia que o Reiki estava, de certa forma, à espera de ser apresentado à comunidade académica e ao SUS pelos investigadores que se dedicassem ao seu estudo.
O livro foi publicado em 2012 e cinco anos depois, através da Portaria n.º 849, de 27 de março de 2017, o Ministério da Saúde brasileiro incluiu formalmente o Reiki na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS. (BVS MS)
Podes ler o PDF aqui…
Uma ressalva histórica importante sobre Mikao Usui
Num dos capítulos é referido que o Reiki teria sido sistematizado por um «monge católico japonês Mikao Usui» no final do século XIX. Esta informação corresponde a narrativas sobre a origem do Reiki que circularam durante décadas no Ocidente através da Mestre Hawayo Takata e dos seus alunos, mas não deve hoje ser tomada como referência histórica sobre Mikao Usui.
A investigação histórica posterior situa o desenvolvimento do Usui Reiki Ryōhō no Japão da década de 1920 e identifica Mikao Usui (1865–1926) como a figura central da sua formação. O investigador Justin B. Stein, que tem estudado academicamente a história e circulação transnacional do Reiki, situa igualmente o surgimento da prática no Japão dos anos 1920.
Por isso, este capítulo deve ser valorizado sobretudo pela sua análise sociológica do discurso energético e das práticas alternativas, e não como fonte para a reconstrução histórica da vida de Mikao Usui.
Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde continua a ser uma obra muito interessante para quem pretende compreender como diferentes modelos de saúde e cuidado podem coexistir e ser estudados. Mais do que defender uma prática contra outra, a proposta convida-nos a abandonar uma visão demasiado simplista da saúde, não olhando o ser humano apenas como um doente, mas alguém de profunda complexidade.
Ficha da obra
Título: Racionalidades Médicas e Práticas Integrativas em Saúde: estudos teóricos e empíricos
Organizadores: Madel T. Luz e Nelson F. de Barros
Edição: 1.ª edição, 2012
Instituições: CEPESC / IMS-UERJ / ABRASCO
Coleção: Clássicos para Integralidade em Saúde
ISBN: 978-85-89737-71-5
Fonte principal: LAPPIS — Laboratório de Pesquisas sobre Práticas de Integralidade em Saúde, Instituto de Medicina Social/UERJ. (Lappis)
Fiz questão de não repetir como facto histórico a descrição de Usui como “monge católico”, porque a própria obra contém aí informação hoje ultrapassada. Ao mesmo tempo, mantive essa passagem como objeto de análise, pois ela é interessante para perceber como o Reiki era enquadrado academicamente naquele período.


