As minhas aprendizagens com o Ven. Mestre Hsing Yun
A 1 de janeiro de 2014 visitei uma loja de arte chinesa na baixa de Lisboa. Nela estava um livro “Karma, Meditação e Sabedoria”, do Venerável Mestre Hsing Ting. O livro interessou-me, algo me puxou para ele. Ao lê-lo, percebi que havia um contacto, um Templo chamado Fo Guang Shan aqui em Lisboa. Fui visitá-lo e neste primeiro dia do ano de 2014 confirmei um dos meus caminhos, que me levou a um grande Mestre, o Venerável Hsing Yun.
As minhas aprendizagens com o Ven. Mestre Hsing Yun
Que aprendizagens tive com o Venerável Mestre Hsing Yun?
- A viver de acordo com os Três Atos de Bondade;
- A ser diligente nas coisas que realmente têm importância para o bem comum;
- A compreender que tudo tem um tempo e não nos devemos apegar a poder;
- A saber encorajar e empoderar;
- Que um monge é também um ser humano e um Templo é um espaço cheio de seres humanos.
Mas como tudo começou?
O caminho pelo templo começou com o acolhimento da Mestre Miao Yen, responsável pelo templo em Portugal. Por Luís Jordão, Presidente da BLIA Sub-delegação Portuguesa, na altura. E por Elisa Chuang, a Supervisora e sempre inspiradora do grupo português. Entre 2014 e 2023 traduzi dezenas de obras do Venerável Mestre Hsing Yun, especialmente “The Carefree Life”, que me foi oferecida por um membro da BLIA de Amesterdão que esteva de visita a Portugal. Prefaciei os livros Ser Bom (2017), O Caminho para a Iluminação (2018), Buda Shakyamuni, uma Biografia (2019) e ainda a revisão de 365 Dias para o Viajante, versão bilingue, em 2020 em pleno confinamento da COVID-19. Ser Bom foi um livro que me impressionou e considero-o um dos pilares de ensinamentos para a minha vida.
O meu caminho pela BLIA (Buddha’s Light International Association) passou por apoiar os trabalhos, ser presidente e depois supervisor da sub-delegação Portuguesa. Prestei apoio ao Grupo de Trabalho para o Diálogo Interreligioso desde 2019 e integrei as reuniões em 2021 até 2024. Lá conheci o KAICIID, instituição da qual me formei em 2023 em Diálogo Interreligioso e representei em várias iniciativas incluíndo a Jornada Mundial da Juventude.
Ao longo dos anos apoiei as iniciativas do Banho do Buda, dei palestras, workshops, estive no Templo em Kaohsiung, Taiwan, em 2016 e 2023, e também na China, 2015, Participei num retiro Chan e nos Congressos da BLIA. Tive o privilégio de receber a minha tomada de refúgio numa cerimónia particular com a Ven. Mestre Miao Yen e Ven. Man Chien, a 10 de agosto de 2015, tendo recebido o nome de Yin Zhi 因智. A 10 de novembro de 2019 realizei a Cerimónia de tomada dos Cinco Preceitos. E a 9 de julho de 2023, a cerimónia dos votos de Bodhisattva, no Templo Fo Guang Shan em França.
Tudo foi feito com uma motivação, conhecer em maior profundidade os ensinamentos do Ven. Mestre Hsing Yun e colocá-los em prática. Então, que ensinamentos pude colher do Ven. Mestre Hsing Yun.
Dizia o Ven. Mestre Hsing Yun que “Se me leres verás-me em todo o lado” e de facto li dezenas dos seus livros, discursos e ensinamentos, tendo traduzido alguns para português. Os seus ensinamentos eram muito simples, fáceis de alcançar, mas profundos. Eram acolhedores e ao mesmo tempo impulsionadores. Sempre os senti como condutas para a vida, pois acredito que se não estudarmos continuamente, se não lermos e nos alimentarmos espiritualmente de forma contínua, muito em nós pode regredir. Ele dizia:
Quando a vida é dura, encara‑a.
Quando a vida é dolorosa, aprende com ela.
Quando a vida é fácil, faz planos.
Quando a vida é agradável, aproveita‑a.
— Ven. Mestre Hsing Yun
Dos seus vastos ensinamentos, tive a oportunidade de escutar um presencialmente “A vida é uma maratona; precisamos de perseverar ao longo da distância e do tempo”. Isto é que tento levar para mim e para todos com quem trabalho. Não adianta esgotar por um momento, mas temos que nos preservar para saber perseverar ao longo do tempo.
Os seus ensinamentos abrangiam também o diálogo e a paz, como este texto que usei para uma comunicação do Grupo de Trabalho para o Diálogo Interreligioso, em que no seu discurso “Happiness and Peace” o Venerável Mestre dizia: “A felicidade e a paz são o que todos procuram e a visão que toda a humanidade se esforça por alcançar. Uma perspetiva de vida feliz traz paz à vida. Não há inimigos aos olhos da compaixão. A compaixão traz boas afinidades. A compaixão harmoniza o eu e os outros, e é una com o universo. Como diz o ditado, a tolerância promove a grandeza; com compaixão e tolerância, podemos naturalmente unir as pessoas e criar muitas condições de apoio. No entanto, a compaixão e a tolerância por si só não são suficientes. Precisam de ser complementadas com sabedoria. Neste mundo, o significado de compaixão é frequentemente distorcido, levando a uma indulgência excessiva e a fechar os olhos ao que está errado. Por isso, a verdadeira compaixão e tolerância devem ser complementadas pela sabedoria prajna para evitar que se enverede pelo caminho errado, tornando inúteis as intenções iniciais.”
Como são sábias estas palavras e nos ajudam e compreender a importância da compaixão, da não divisão, da tolerância e sabedoria. Ao longo de todo o percurso budista, dentro do Templo Fo Guang Shan, vamos cumprindo vários votos e, aqueles que antecedem a vida monástica, são os Votos de Bodhisattva. No seu livro “Tornar-se Bodhisattva”, o Venerável Mestre relembrava os quatro votos essenciais – “Os seres sencientes são ilimitados, eu prometo libertá-los; as aflições são infinitas, eu prometo aprendê-las; os ensinamentos são infinitos, eu prometo aprendê-los; o Buda é supremo, eu prometo alcançá-lo”. A promessa dos votos é o que dá aos bodhisattvas a força e o conhecimento para cumprir o caminho dos bodhisattva Mahayana”.
Sempre vi o Venerável Mestre como uma pessoa acessível, com uma vontade de que todos pudessem ser assim também, abertos e sinceros, simples e claros, sem artifícios. A sua perspetiva dos ensinamentos do Buda foi sempre ao encontro do nosso quotidiano, do não julgamento e do entendimento. Em “Pensamentos Modernos, Mentalidade Ponderada”, ele dizia:
“Não matar significa respeitar a vida dos outros como também proteger toda a vida.
Não roubar significa respeitar a propriedade dos outros como também ser alguém generoso e prestável.
Abster das más práticas sexuais significa respeitar o corpo dos outros e a sua integridade.
Não mentir significa respeitar a reputação dos outros, confortando e encorajando-os.
Não ingerir substâncias tóxicas significa respeitar o nosso próprio intelecto e ensina-nos a ser sábios e a ajudar os outros a manter um raciocínio coerente.”
Finalmente só posso terminar com as palavras que sempre me marcaram desde o início e que são os Três Atos de Bondade – “Bons Pensamentos, Boas Palavras, Boas Ações”.
Aprender Budismo não é necessariamente seguir uma religião. Praticar Budismo, não é necessariamente estar dentro de uma religião. Na tomada de refúgio, o primeiro momento em que a pessoa se afirma no caminho, dizemos “Eu Sou Buda”. Eu Sou, Tu És, Todos Somos, por isso há a interdependência e não a separação.
Após o seu falecimento com 95 anos (19 de agosto de 1927 – 5 de fevereiro de 2023) e após a minha visita ao Templo em Taiwan para prestar homenagem, senti a perda da sua presença física que era como um farol na vida do mundo, mas não dos seus ensinamentos. E assim fechou-se um ciclo.
Tenho a agradecer a todos os membros da comunidade chinesa que me acolheram, à Elisa que sempre apoiou e contribuiu para os melhores ensinamentos, às Veneráveis Mestres que prestaram o seu ensinamento e conduziram o templo em Portugal e a todos os membros do grupo português pela sua perseverança na prática.








Um comentário
Solange Franco
Maravilhoso, gratidão por compartilhar.