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Os projetos científicos em Portugal e Reiki em Hospitais – uma apresentação na UFRRJ

No dia 26 de junho de 2026 tive o privilégio de participar no II Congresso Oficial de Reiki da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica, onde apresentei o tema Os projetos científicos em Portugal e Reiki em Hospitais. Foi um momento de encontro entre dois países profundamente ligados à história contemporânea do Reiki: Portugal e Brasil.

Estar na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro teve, para mim, um significado especial. Desde 2019, a UFRRJ acolhe um Curso de Extensão Universitária de Reiki, conduzido pelo Mestre Johnny De’ Carli. Este trabalho representa a abertura da universidade ao diálogo, à formação e à reflexão responsável sobre uma prática que é procurada por muitas pessoas e que, por isso mesmo, deve ser observada com seriedade.

Iniciei este encontro premiando o Mestre Johny De’ Carli com o Prémio Helena Tempera, Reiki em Escolas, exatamente por este projeto maravilhoso na UFRRJ desde 2019.

Entreguei também a todos os investigadores os seus respetivos Prémio Hayashi de Investigação Reiki e também o Prémio Helena Tempera de Reiki em Escolas à prof. Andressa Ferreira da Silva. Houve um especial agradecimento ao Prof. Ricardo Monezi, que foi o primeiro investigador Brasileiro a apresentar o seu trabalho em Portugal.

Os projetos científicos em Portugal e Reiki em Hospitais

A minha apresentação não nasceu apenas de números, gráficos ou artigos científicos. Nasceu também das pessoas: investigadores que decidiram estudar Reiki, profissionais de saúde que criaram condições para a sua integração, voluntários que ofereceram o seu tempo e utentes que confiaram nos projetos. Nasceu, sobretudo, de uma pergunta:

Como podemos cuidar melhor, respeitando simultaneamente a experiência humana e o rigor da investigação?

Um praticante de Reiki diante da ciência

Comecei a apresentação com uma afirmação muito simples: não sou académico, nem tenho formação científica. Sou praticante de Reiki e designer. Esta declaração não pretende diminuir o trabalho realizado. Pelo contrário, recorda-me o lugar a partir do qual observo e procuro compreender a investigação. Não me cabe substituir um investigador, da mesma forma que não cabe ao Reiki substituir a medicina. Mas podemos aprender a ler, organizar, questionar e comunicar o conhecimento produzido.

Ao longo dos anos, fui reunindo estudos, teses, dissertações, artigos e relatos de implementação. A criação desta base de dados permitiu-me obter uma visão mais ampla sobre o que já foi estudado, os benefícios observados e, igualmente importante, as limitações existentes.

Investigar Reiki não significa procurar apenas resultados favoráveis. Significa aceitar o teste, a comparação e até a possibilidade de os resultados serem nulos ou inconclusivos. É precisamente esta disponibilidade para questionar, rever e melhorar que distingue uma atitude científica de uma posição fechada à refutação.

Quando o Reiki entrou num hospital público português

Um dos primeiros projetos apresentados foi o trabalho desenvolvido no Hospital do Fundão, integrado no então Centro Hospitalar Cova da Beira. Em junho de 2013 foi celebrado um protocolo entre o Núcleo do Fundão da Associação Portuguesa de Reiki e o hospital. As primeiras consultas começaram em setembro desse ano, tornando-se a primeira consulta regular de Reiki realizada num hospital público em Portugal.

Entre setembro de 2013 e dezembro de 2019 foram realizadas 933 consultas, dirigidas a pessoas com idades entre os 10 e os 79 anos. O projeto começou com três terapeutas voluntários e chegou a contar com treze.

Cada consulta tinha inicialmente cerca de 45 minutos, passando posteriormente para uma hora. Existia consentimento informado, uma ficha de acompanhamento, recolha de informação relevante e avaliação da dor ou do desconforto antes e depois da sessão.

Este aspeto é essencial: o Reiki era apresentado e praticado como uma terapia complementar. Não diagnosticava, não substituía tratamentos e não interferia com as orientações médicas.

Muitos dos encaminhamentos feitos pelos próprios médicos estavam relacionados com ansiedade e depressão. Entre as outras situações encontravam-se doença oncológica, luto, tensão emocional, fibromialgia e dor.

Em 2018, a procura levou o serviço a aumentar de seis para nove consultas semanais e de dois para três gabinetes. Entre os utentes desse ano, 85% eram mulheres e a faixa etária mais frequente situava-se entre os 50 e os 59 anos.

Os números ajudam-nos a compreender a dimensão do projeto, mas não mostram tudo. Por detrás de cada consulta estava alguém a atravessar uma dificuldade. Estava também um voluntário que chegava ao hospital com disponibilidade para escutar, permanecer e cuidar.

O projeto do Fundão demonstrou que é possível integrar Reiki num ambiente hospitalar de forma organizada, voluntária e complementar. Mostrou também uma das grandes fragilidades destes projetos: nem sempre existem instrumentos suficientemente precisos para transformar a experiência acumulada em evidência científica sólida.

Fazer muito não é o mesmo que estudar bem. Por isso, precisamos de melhorar os registos, definir indicadores, utilizar escalas validadas e acompanhar os resultados ao longo do tempo.

Sorrir com Reiki: cuidar das crianças e de quem cuida

O segundo caso hospitalar apresentado foi o projeto Sorrir com Reiki, realizado no Departamento da Criança e do Jovem do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca, na Amadora.

Os dados apresentados são preliminares e pertencem a um estudo ainda não publicado, desenvolvido por Paulo Cristão, Catarina Conceição, Clara Abadesso e Elsa Mourão, com o apoio da Associação Portuguesa de Reiki e da Amadora Compassiva.

Entre janeiro e outubro de 2025 foram realizadas 99 sessões. Dessas, 59 tiveram dados registados, envolvendo 38 participantes, entre crianças, jovens internados e profissionais de saúde.

As sessões decorreram à cabeceira, durante aproximadamente 30 a 45 minutos, e foram realizadas por voluntários certificados. O programa tinha uma particularidade muito importante: não cuidava apenas dos doentes, mas também das equipas.

Humanizar os cuidados significa reconhecer que os profissionais também sentem cansaço, ansiedade, dor e desgaste emocional.

O estudo utilizou uma avaliação antes e depois das sessões, recorrendo à escala Wong-Baker FACES para a dor e a ansiedade, a sinais vitais e a uma análise qualitativa das experiências relatadas.

Nas crianças e jovens internados observou-se uma redução média de 3,1 pontos na dor e de 2,8 pontos na ansiedade. Nos profissionais de saúde, a dor e a ansiedade diminuíram, em média, 3,1 pontos. Foi também observada uma redução da frequência cardíaca nos profissionais.

Em 57,6% das sessões foi registado relaxamento profundo e em 22% ocorreu indução do sono. Não foram reportados efeitos adversos.

Estes resultados são encorajadores, mas devem ser interpretados com prudência. O estudo não possui grupo de controlo, utiliza uma amostra de conveniência e observa sobretudo efeitos imediatos. Os próprios autores reconhecem a necessidade de amostras maiores e de desenhos de investigação mais robustos.

A importância deste projeto não está apenas nos valores estatísticos. Está na possibilidade de uma criança hospitalizada sentir menos medo. Está no profissional que encontra alguns minutos de pausa. Está numa forma de cuidado que procura tornar o ambiente hospitalar mais humano sem se colocar contra a medicina.

O que tem Portugal investigado sobre Reiki?

Ao organizar a investigação portuguesa disponível entre 2007 e 2026, identifiquei 56 trabalhos académicos e científicos, produzidos ao longo de aproximadamente 19 anos e relacionados com mais de quinze universidades e institutos politécnicos.

Este conjunto incluía:

  • 26 teses, dissertações e outros trabalhos académicos;
  • 30 artigos, ensaios ou publicações científicas;
  • 14 publicações científicas com resultados favoráveis;
  • duas com resultados mistos;
  • catorze de natureza descritiva, contextual ou não empírica.

Os trabalhos abrangem áreas como Enfermagem, Psicologia, Gerontologia, Educação, Oncologia e Cuidados Paliativos. Entre os temas mais estudados encontram-se a dor, a ansiedade, o stress, a qualidade de vida, o bem-estar de pessoas idosas, o apoio a doentes oncológicos e o autocuidado dos profissionais de saúde.

Existe, portanto, uma produção académica diversificada. No entanto, a evidência clínica mais robusta continua a ser escassa.

Entre os trabalhos portugueses identificados existia apenas um ensaio clínico aleatorizado em seres humanos: o estudo de Zilda Alarcão e José Fonseca, publicado em 2016 no European Journal of Integrative Medicine.

O estudo envolveu 116 pessoas com doenças onco-hematológicas, divididas aleatoriamente entre Reiki verdadeiro e Reiki simulado. Foram realizadas duas sessões semanais, durante quatro semanas, com uma hora de duração. Os resultados indicaram uma melhoria significativa da qualidade de vida no grupo que recebeu Reiki, nomeadamente nas dimensões geral, física, social e ambiental.

É um estudo relevante, mas um único ensaio não permite responder a todas as perguntas. Precisamos de replicação, de equipas independentes, de diferentes populações e de acompanhamento posterior.

Resultados favoráveis também precisam de prudência

Uma das mensagens que procurei transmitir no congresso foi que não devemos esconder resultados desfavoráveis.

Uma revisão sistemática realizada em 2013 na Universidade Católica Portuguesa analisou estudos sobre terapias de imposição das mãos e concluiu não existir evidência sólida de alterações fisiológicas significativas. Os trabalhos avaliados apresentavam elevado risco de viés e resultados estatísticos pouco consistentes.

A revisão reuniu, no entanto, diferentes práticas — Reiki, Toque Terapêutico, Johrei e Passe Espírita — o que dificulta a avaliação específica de cada uma. Além disso, a pesquisa terminou em 2013, não abrangendo os estudos publicados posteriormente.

Desde então, surgiram resultados mais promissores relativamente à dor, ansiedade, qualidade de vida e alguns parâmetros autonómicos, como a frequência cardíaca e a pressão arterial. No entanto, os resultados bioquímicos, incluindo cortisol e alguns marcadores imunológicos, permanecem inconsistentes. Isto significa que ainda existe muito por compreender.

Uma redução da ansiedade pode resultar de diferentes componentes: o ambiente, a atenção recebida, o repouso, a relação terapêutica, o toque ou um possível efeito específico do Reiki. Para distinguir estas possibilidades, precisamos de estudos adequadamente controlados. Reconhecer esta complexidade não diminui o Reiki. Torna a investigação mais honesta e deve estimular à procura de respostas.

Diferentes caminhos da investigação portuguesa

Na apresentação, partilhei também alguns exemplos que mostram a diversidade dos trabalhos realizados. Os estudos exploratórios de Anabela Ventura e Michael Persinger, realizados na Laurentian University, no Canadá, analisaram através de eletroencefalografia a coerência cerebral entre praticante e recetor. Num dos estudos, foi observado um aumento da coerência na banda teta entre os pares de Reiki, sobretudo no hemisfério esquerdo. São resultados interessantes, mas obtidos em amostras pequenas. A hipótese de sincronização cerebral e, sobretudo, os trabalhos relacionados com Reiki à distância precisam de replicação independente, amostras maiores e controlos rigorosos.

Foi também apresentado um protocolo elaborado por Gertrudes Coelho, no Instituto Politécnico de Portalegre, para estudar o efeito do Reiki na ansiedade de adolescentes do 12.º ano. Trata-se de uma proposta experimental, ainda sem resultados, que prevê aleatorização, grupo de controlo e utilização da escala GAD-7.

Um protocolo não demonstra eficácia, mas tem valor porque transforma uma intenção numa pergunta que pode ser estudada.

Outro contributo importante veio de Nuno Salgado. Uma revisão integrativa publicada em 2022 concluiu que programas de Reiki poderiam contribuir para a redução do stress, ansiedade e burnout em profissionais de enfermagem, recomendando, porém, estudos mais padronizados.

Na sua dissertação de mestrado, apresentou ainda o Programa Naru, inspirado nos princípios e técnicas meditativas do Reiki e dirigido a estudantes do primeiro ano de Enfermagem.

Entre os doze participantes foram observadas melhorias significativas no stress, ansiedade, depressão, sofrimento psicológico, equilíbrio, sociabilidade e felicidade. Novamente, a pequena amostra e a ausência de um grupo de controlo obrigam a considerar os resultados como preliminares.

O que precisamos de fazer melhor

Ao observar os estudos portugueses e internacionais, tornam-se claras algumas prioridades para o futuro:

Precisamos de ensaios aleatorizados com Reiki simulado e melhores condições de ocultação. Precisamos de amostras maiores e de estudos realizados em vários centros. Precisamos de instrumentos validados, protocolos previamente registados e uma descrição clara da duração das sessões, posições utilizadas e formação dos praticantes.

É igualmente necessário acompanhar os participantes após a intervenção. Uma pessoa pode sentir menos dor imediatamente depois de uma sessão, mas esse efeito mantém-se durante horas, dias ou semanas?

Também devemos escolher melhor aquilo que medimos. Para além da frequência cardíaca e da pressão arterial, poderá ser relevante observar a variabilidade da frequência cardíaca, marcadores inflamatórios, cortisol salivar ou imunoglobulina A. Mas estes dados só serão úteis quando recolhidos através de protocolos consistentes.

No contexto português, considero particularmente importantes novos estudos em pediatria, oncologia, cuidados paliativos, pessoas idosas e profissionais de saúde.

Poderá existir um protocolo de Reiki para a dor?

Na parte final da apresentação, propus um desafio aos participantes: será possível criar um protocolo de Reiki para a dor a partir do que os estudos já realizados nos ensinam?

Diversos trabalhos utilizaram sessões entre 10 e 40 minutos, consoante o contexto clínico. Alguns recorreram a sequências padronizadas de posições, geralmente durante cerca de três minutos em cada posição, terminando com uma aplicação mais prolongada na zona da dor.

Nos contextos pós-operatórios foram frequentemente utilizadas sessões de aproximadamente 30 minutos. Na oncologia e nos cuidados paliativos, a duração foi adaptada à tolerância e ao conforto da pessoa. Em situações de internamento ou junto à cabeceira, foram testados formatos mais breves. Esta síntese não deve ser entendida como uma recomendação clínica definitiva. Foi apresentada como ponto de partida para o diálogo e para o desenho de futuros estudos.

A padronização é necessária para que os resultados possam ser comparados. Contudo, cada pessoa tem uma história, uma condição clínica e necessidades próprias. É aqui que surge uma tensão muito humana: como criar um protocolo comum sem perder a capacidade de cuidar daquela pessoa concreta?

Talvez a resposta não esteja num dos extremos. Podemos padronizar o que é necessário para investigar e, simultaneamente, preservar a escuta, a adaptação e o respeito pela pessoa.

O que verdadeiramente importa

Terminei a apresentação regressando ao essencial. A investigação é necessária. Os protocolos são necessários. Os números, as escalas e os grupos de controlo são necessários. Sem eles, corremos o risco de confundir desejo com evidência e experiência pessoal com conhecimento generalizável. Mas nenhuma estatística deve fazer-nos esquecer a pessoa que está diante de nós.

Para o praticante de Reiki e para quem recebe Reiki, o que verdadeiramente importa continua a ser a plena presença, o cuidado integral e o bem-estar.

O nosso querido mestre Mikao Usui ensinava que a missão do Usui Reiki Ryoho era guiar para uma vida pacífica e feliz, cuidando dos outros e contribuindo para a sua felicidade e para a nossa. Talvez este seja também o papel da investigação: ajudar-nos a cuidar com mais consciência, mais responsabilidade e maior respeito. Não precisamos de escolher entre humanidade e ciência. Precisamos de aprender a colocá-las em diálogo.

Foi um enorme privilégio partilhar esta reflexão na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e estar com tantas pessoas que trabalham para que o Reiki seja praticado, ensinado e investigado com seriedade. A todos os investigadores, profissionais de saúde, voluntários, praticantes e utentes que tornam este caminho possível, a minha profunda gratidão.

Designer, Mestre, Terapeuta de Reiki, Presidente da Associação Portuguesa de Reiki e fundador da Ser - Cooperativa de Solidariedade Social. Autor dos livros «Reiki Guia para uma Vida Feliz», «O Grande Livro do Reiki», «Reiki Usui», entre muitos outros. Fundador do Instituto Educação pela Paz. Acima de tudo quero partilhar contigo o porquê de Reiki ser a «Arte Secreta de Convidar a Felicidade».

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João Magalhães Reiki
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