Como Reiki é oficialmente um recurso nos cuidados paliativos no Brasil, seguindo as recomendações da OMS
Reiki é reconhecido como uma Prática Complementar e Integrativa no Brasil e amplamente aplicada no SUS (Sistema Único de Saúde). Uma nota técnica de 2025 vem reforçar a importância destas PICs nos Cuidados Paliativos. Esta direção ajuda-nos também a compreender que Reiki pode ser sempre um complemento no cuidado holístico da pessoa, como um reforço humanizado e um estar que pode contribuir para a paz de cada utente.
Ler aqui sobre a NOTA TÉCNICA CONJUNTA Nº 244/2025-DEPROS/SAPS/MS
Reiki nos cuidados paliativos do SUS: o que representa a Nota Técnica nº 244/2025 e o alinhamento com a OMS
A integração do Reiki nos cuidados de saúde no Brasil alcançou um novo enquadramento institucional. A Nota Técnica Conjunta nº 244/2025-DEPROS/SAPS/MS, disponibilizada pelo Ministério da Saúde em 2026, trata especificamente da introdução das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde — PICS — nos cuidados paliativos do Sistema Único de Saúde e inclui nominalmente o Reiki entre as possibilidades de cuidado.
Este é um reconhecimento importante onde Reiki pode entrar como uma prática complementar no plano de cuidados, especialmente perante necessidades emocionais e espirituais, respeitando a situação clínica da pessoa.
O caminho oficial do Reiki no Sistema Único de Saúde no Brasil
O Reiki integra oficialmente a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS desde 2017. A Portaria nº 849/GM/MS incluiu-o, juntamente com outras práticas, na PNPIC, determinando que a sua oferta respeitasse as orientações desta política nacional. (Biblioteca Virtual em Saúde)
Em 2024, o Brasil instituiu a Política Nacional de Cuidados Paliativos — PNCP, estabelecendo as bases para organizar esta abordagem em toda a Rede de Atenção à Saúde. A política foi posteriormente atualizada pela Portaria GM/MS nº 10.181, de 26 de janeiro de 2026. Os cuidados paliativos devem ser oferecidos precocemente, ao longo do ciclo de vida e em todos os pontos da rede, incluindo a Atenção Primária, os cuidados domiciliários, os ambulatórios, os hospitais e os serviços de urgência. (Serviços e Informações do Brasil)
A Nota Técnica nº 244/2025 aproxima agora estas duas políticas: a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares e a Política Nacional de Cuidados Paliativos.
Reiki, uma abordagem integral, humanizada e centrada na pessoa
Segundo a Nota Técnica, o cuidado das pessoas que enfrentam condições graves ou ameaçadoras da vida é também uma responsabilidade da Atenção Primária à Saúde. Neste contexto, as PICS devem ser consideradas como uma forma de ampliar a oferta de cuidado integral, humanizado e centrado na pessoa, incluindo as necessidades dos familiares e cuidadores.
Este documento destaca algumas características particularmente importantes destas práticas:
· a escuta qualificada;
· o vínculo terapêutico;
· a atenção às dimensões física, emocional, social e espiritual;
· a promoção do conforto, da autonomia e da qualidade de vida;
· a integração da pessoa no seu contexto familiar, comunitário e territorial.
De acordo com os dados apresentados na própria Nota Técnica, o Censo das Unidades Básicas de Saúde de 2024 identificou a oferta de PICS em aproximadamente 28% das UBS, correspondendo a cerca de 13 mil unidades de Atenção Primária distribuídas pelo Brasil. Esta presença territorial pode favorecer a integração das práticas nos projetos terapêuticos singulares e no acompanhamento continuado das pessoas com necessidades paliativas.
O que a Nota Técnica diz especificamente sobre o Reiki
O Quadro 1 da Nota Técnica organiza as PICS de acordo com os sintomas e condições mais frequentemente encontrados nos cuidados paliativos. O Reiki é mencionado entre as possibilidades terapêuticas relacionadas com os chamados sintomas psíquicos, nomeadamente:
· ansiedade;
· depressão;
· medo;
· tristeza.
Neste grupo, o Reiki surge ao lado da meditação, musicoterapia, arteterapia, acupuntura, yoga, aromaterapia, terapia comunitária integrativa e outras práticas. (Serviços e Informações do Brasil). Esta é uma referência oficial relevante porque coloca expressamente o Reiki dentro de uma orientação federal dedicada aos cuidados paliativos no SUS. Contudo, a leitura do documento deve ser precisa. O Reiki é nomeado no quadro relativo aos sintomas psíquicos, mas não é especificamente indicado, nesse documento, para o tratamento da dor, fadiga, dispneia, náuseas ou vómitos. Além disso, no quadro seguinte, organizado por prática, o Reiki não volta a ser listado.
Por isso, a formulação mais rigorosa não é dizer que o Ministério da Saúde recomenda o Reiki para todos os cuidados paliativos. O que a Nota Técnica faz é reconhecer oficialmente a possibilidade de o Reiki ser integrado, de forma complementar e individualizada, no cuidado das necessidades emocionais e psíquicas de pessoas em cuidados paliativos.
Complementar não significa alternativo
A Nota Técnica é clara ao afirmar que as PICS devem ser integradas no plano terapêutico singular:
· de acordo com a condição clínica da pessoa;
· respeitando as suas preferências;
· considerando as evidências disponíveis;
· tendo em conta a segurança da prática;
· sendo realizadas por profissionais capacitados;
· de acordo com a organização e os recursos do serviço.
A sua utilização deve ocorrer sempre como complemento das abordagens farmacológicas e convencionais. Portanto, o Reiki não deve atrasar, interromper ou substituir tratamentos médicos, controlo farmacológico da dor, apoio psicológico, acompanhamento de enfermagem ou qualquer outra intervenção necessária.
O documento também não cria automaticamente serviços de Reiki em todas as unidades do SUS. A implementação depende dos gestores locais, da existência de profissionais preparados, dos fluxos assistenciais e das prioridades identificadas em cada território. Na conclusão, o Ministério da Saúde recomenda que a integração das PICS nos cuidados paliativos seja considerada nos processos formativos, nos fluxos de assistência e na elaboração de diretrizes locais. Esta recomendação abre espaço para que os serviços desenvolvam projetos estruturados, avaliados e articulados com as equipas multiprofissionais.
O alinhamento com a Estratégia Global da OMS 2025–2034
A Nota Técnica brasileira encontra-se em consonância com a Estratégia Global de Medicina Tradicional 2025–2034, adotada pela 78.ª Assembleia Mundial da Saúde.
A estratégia da Organização Mundial da Saúde tem como visão o acesso universal a práticas tradicionais, complementares e integrativas que sejam seguras, efetivas e centradas na pessoa. Para a OMS, a medicina integrativa deve combinar os conhecimentos e práticas biomédicas e complementares através de uma abordagem interdisciplinar e baseada em evidências. (World Health Organization)
A estratégia estabelece quatro grandes objetivos:
- Fortalecer a base de evidências científicas.
- Garantir mecanismos adequados de segurança, qualidade e regulação.
- Integrar práticas seguras e efetivas nos sistemas de saúde.
- Promover a colaboração entre setores e a participação das comunidades.
A OMS inclui expressamente os cuidados paliativos no contínuo de serviços de saúde em que as práticas tradicionais, complementares e integrativas podem ser estudadas e incorporadas. Este contínuo abrange a promoção da saúde, a prevenção, o tratamento, a reabilitação e os cuidados paliativos ao longo da vida.
Contudo, a Estratégia Global não recomenda especificamente o Reiki. O que a OMS estabelece são os critérios que qualquer prática deve cumprir para ser integrada de forma responsável:
· evidência científica adequada;
· formação e competências dos praticantes;
· segurança e qualidade;
· monitorização dos resultados;
· documentação clínica;
· coordenação com os profissionais de saúde;
· informação clara sobre benefícios, limites e riscos;
· proteção contra alegações enganosas ou não comprovadas.
É a Nota Técnica brasileira que estabelece a ligação específica com o Reiki no contexto dos sintomas emocionais e psíquicos dos cuidados paliativos.
O que diz atualmente a investigação científica
O reconhecimento institucional não deve ser confundido com uma conclusão definitiva sobre a eficácia clínica.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 analisou Reiki e Toque Terapêutico em contextos paliativos e de fim de vida. Foram incluídos nove estudos, com 415 participantes, entre os quais três ensaios clínicos aleatorizados. A maioria das pessoas participantes tinha doença oncológica.
Alguns estudos relataram melhorias na dor, ansiedade, depressão, fadiga, stress, sono, relaxamento, esperança, energia e bem-estar emocional. Os estudos qualitativos também registaram experiências de conforto, relaxamento e apoio emocional.
No entanto, os autores concluíram que a evidência permanece limitada e heterogénea. A certeza global foi considerada muito baixa, impedindo conclusões firmes sobre a eficácia do Reiki e do Toque Terapêutico nos cuidados paliativos. A monitorização de eventuais efeitos adversos também foi insuficiente na maioria dos estudos. (Universidade de Lisboa)
Assim, o estado atual do conhecimento permite falar em potencial complementar e resultados preliminares, mas não permite apresentar o Reiki como uma intervenção de eficácia comprovada para todos os sintomas ou todas as pessoas em cuidados paliativos.
Esta prudência não diminui a importância do Reiki. Pelo contrário, reforça a necessidade de o integrar com seriedade, ética, investigação e avaliação contínua.
Como poderá o Reiki ser integrado de forma responsável
Uma implementação coerente com a Nota Técnica e com as recomendações da OMS deverá contemplar alguns elementos essenciais:
· Objetivo terapêutico definido: identificar previamente se a sessão pretende apoiar o relaxamento, a ansiedade, o medo, a tristeza ou outra necessidade concreta.
· Consentimento e autonomia: explicar o que é o Reiki, os seus limites e a sua natureza complementar, respeitando sempre a vontade da pessoa.
· Avaliação individualizada: adaptar a duração, o posicionamento e a eventual utilização do toque à fragilidade, aos dispositivos médicos e às condições clínicas.
· Profissionais capacitados: estabelecer critérios de formação, ética, supervisão e articulação com a equipa de cuidados paliativos.
· Registo clínico: documentar a sessão, o objetivo, a resposta observada e possíveis ocorrências, utilizando sempre que possível instrumentos de avaliação antes e depois da intervenção.
· Trabalho interdisciplinar: integrar o praticante no plano de cuidados, mantendo comunicação com médicos, enfermeiros, psicólogos e restantes profissionais.
· Monitorização e investigação: avaliar satisfação, ansiedade, conforto, qualidade de vida, consumo de medicação de resgate e possíveis eventos adversos, divulgando os resultados de forma transparente.
Este modelo permite ultrapassar duas posições extremas: a rejeição automática das práticas complementares e a sua promoção sem critérios científicos ou clínicos.
Um marco que traz também responsabilidade
A inclusão nominal do Reiki na Nota Técnica nº 244/2025 representa um passo importante para o seu reconhecimento nos cuidados paliativos no Brasil. Demonstra que o cuidado de uma pessoa com doença grave não se limita ao controlo biomédico da doença, mas deve também considerar o sofrimento emocional, os medos, os vínculos, a espiritualidade, a família e a procura de sentido.
Ao mesmo tempo, este reconhecimento traz uma responsabilidade acrescida para praticantes, instituições e gestores. Quanto maior for a integração do Reiki nos serviços de saúde, maior deverá ser o compromisso com a formação, a segurança, a ética, a documentação e a produção de conhecimento.
O Reiki pode oferecer um tempo de presença, silêncio, escuta e cuidado num momento em que muitas pessoas se sentem vulneráveis. Nos cuidados paliativos, esta presença pode ser profundamente significativa. Mas deverá estar sempre inserida numa equipa, respeitar as necessidades clínicas e caminhar lado a lado com a medicina, nunca contra ela.
A verdadeira integração acontece quando todas as formas de cuidado trabalham para o mesmo propósito: reduzir o sofrimento e proporcionar à pessoa a melhor qualidade de vida possível, com dignidade, autonomia e humanidade.
Documentos e referências principais
· Ministério da Saúde do Brasil. Nota Técnica Conjunta nº 244/2025-DEPROS/SAPS/MS — Introdução das PICS no âmbito dos Cuidados Paliativos no SUS.
· Organização Mundial da Saúde. Global Traditional Medicine Strategy 2025–2034.
· Ministério da Saúde. Portaria nº 849/GM/MS, de 27 de março de 2017, que incluiu o Reiki na PNPIC. (Biblioteca Virtual em Saúde)
· Pontes-Gomes R, Reis-Pina P. Reiki and Therapeutic Touch for symptom burden and quality of life in palliative settings: a systematic review. Palliative Medicine, 2026. (Universidade de Lisboa)


