Ler à Sexta

Ler à Sexta – O teu corpo tem memória, de Natalia Seijo

O nosso corpo carrega toda a nossa experiência de vida. Aquelas partes maravilhosas e leves, mas também todos os pesos, todas as feridas e vivências que nos esmagaram. Como podemos ter esperança se passamos por tudo isso?

Em O teu corpo tem Memória, Natalia Seijo apresenta-nos a abordagem somática que nos ajuda a ter um olhar de esperança perante as nossas vivências e a forma como se manifestam no nosso corpo

Bem-vindo a mais um Ler à Sexta.

O teu corpo tem memória, de Natalia Seijo

Como é que o stresse, a ansiedade ou o trauma afetam o nosso corpo?

O que têm a inflamação, a dor, a enxaqueca ou a dermatite a ver com o nosso historial psicológico?

Costumamos considerar o nosso corpo um mero espectador da nossa vida, impassível perante aquilo que vivemos e sentimos. Contudo, o corpo está sempre presente e consciente: experimenta, recorda e exprime-se continuamente com sinais que nem sempre sabemos decifrar. Natalia Seijo, psicóloga e especialista em psicossomática, apresenta o guia mais completo e atualizado para compreender a estreita relação que existe entre a nossa saúde mental e física. Através de diversos casos de pacientes a quem a psicoterapia conseguiu devolver a esperança perante todo o tipo de maleitas, oferece-nos as chaves para validar o que sentimos, identificar a origem do nosso mal-estar e viver melhor as experiências que estão por vir.

Podes ler mais sobre o livro no site da Pergaminho Editora
Podes ler um excerto do livro aqui…

Tipos de doenças psicossomáticas e do sistema imunitário

Falamos de doenças psicossomáticas tanto nos casos em que as causas psicológicas estão na origem de sintomas físicos como quando uma doença física se agrava por influência de fatores emocionais. O termo «psicossomático» refere-se a situações em que o psíquico afeta o corpo; já «somatopsíquico» aplica-se aos casos em que as alterações psicológicas surgem como consequência de uma doença física.

Embora existam diferentes formas de classificar estas doen-ças, em seguida destacaremos as características mais relevantes de cada uma, para facilitar a sua distinção.

• A perturbação psicossomática está associada ao sistema nervoso autónomo (ou vegetativo), responsável pelas funções involuntárias do organismo. O termo «psicossomático» refere-se geralmente a situações em que há uma lesão orgânica provocada por fatores psicológicos e/ou emocionais.

No entanto, também pode ser utilizado para descrever casos em que existe uma disfunção orgânica (sem lesão no órgão) provocada por fatores psicológicos.

• A perturbação somatoforme ou conversiva está relacionada com o sistema nervoso somático, que taz parte do sistema nervoso periférico e é responsável por conduzir a informação nervosa até ao sistema músculoesquelético. Neste caso, a perturbação é funcional, ou seja, não há lesão nas zonas afetadas. Nesta categoria temos os exemplos da nevralgia facial ou da perturbação neurológica funcional.

  • As doenças psicocutâneas são condições clínicas que envolvem a interação entre o cérebro e a pele. A dermatologia psicossomática é a área da medicina que estuda essa relação, baseada no facto de o cérebro e a pele terem origem na mesma camada germinativa (conjunto de células formadas durante o desenvolvimento embrionário a partir das quais se desenvolvem os órgãos e tecidos). Esta origem comum ajuda a explicar a influência dos estados emocionais na pele, bem como a forma como ambos comunicam através de neurotransmissores e hormonas.
  • As doenças somatopsíquicas não encaixam num sistema de diagnóstico formal e não devem ser confundidas com as doenças psicossomáticas. Ao contrário destas, as doenças somatopsíquicas são perturbações psicológicas desencadea-das por uma causa médica. Um exemplo é o hipotiroidismo, que pode provocar sintomas de depressão e ansiedade.
  • Quanto às doenças autoimunes, embora não sejam classificadas como psicossomáticas, muitas vezes têm como antecedente uma forte carga emocional. Nestes casos, o sistema imunitário reage de forma anómala, atacando por engano tecidos saudáveis e funcionais do corpo como se fossem agentes invasores. Este grupo inclui tanto doenças sistémicas (como o lúpus eritematoso sistémico, a artrite reumatoide ou a esclerodermia, etc.) como doenças específicas de órgãos (como a tiroidite de Hashimoto ou a hepatite autoimune).
    Pode estabelecer-se uma distinção entre:
    • Doenças autoinflamatórias: condições provocadas por um mau funcionamento do sistema imunitário inato, respon-sável, entre outras funções, pelo recrutamento de células imunitárias e pela identificação de bactérias e substâncias estranhas. Estas doenças caracterizam-se por episódios recorrentes de febre e inflamação com início na infância, que não são provocados por infeções nem por doenças autoimunes. São exemplos a febre mediterrânica familiar e a síndrome da hiperimunoglobulinemia D.
    • Doenças autoimunes: resultam de um mau funcionamento do sistema imunitário adaptativo, cuja função é eliminar agentes patogénicos e impedir a sua proliferação. Os sintomas variam consoante o órgão ou o tecido afetado, e podem oscilar entre manifestações mais ligeiras e quadros mais graves. Entre os sinais mais comuns encontram-
    • se: fadiga, febre baixa, dores articulares, alterações cutâneas e um mal-estar generalizado. Algumas das doenças autoimunes mais frequentes incluem a doença celíaca, a diabetes de tipo 1, a doença de Graves (a causa mais comum de hipertiroidismo), a doença de Crohn, a colite ulcerosa e a esclerose múltipla.

A autora transporta-nos também através de várias histórias que nos ajudam a relacionar questões que nós próprios vivenciamos, com as abordagens psicológicas e somáticas:

António e a humilhação

António é um homem calmo no dia a dia, mas há algo que o transtorna profundamente: sentir-se desrespeitado. Sofre de sindrome do intestino irritável, uma condição fortemente influenciada pelo seu estado emocional. Numa ocasião, foi ao banco pedir um recibo de que precisava para o trabalho. Embora tenha feito o pedido de forma respeitosa, o bancário foi inesperadamente mal-educado. Nesse momento, deixou de ver o bancário e, sem se dar conta, ativou uma memória antiga: a imagem do pai a humilhá-lo. Inconscientemente, ativou uma defesa chamada «personalização», um mecanismo que nos leva a tomar como pessoal algo que não nos diz diretamente respeito e que nos faz reagir com intensidade desproporcionada.
António só tinha consciência da raiva despertada pela falta de respeito do banqueiro, que acabou por gerar uma situação tensa no banco. Quando falámos sobre o episódio na consulta, percebemos que a tendência para a personalização era um padrão recorrente na sua vida. Ganhou consciência da sua ferida de humilhação (que aprofundaremos mais adiante) paterna e da frequência com que ela o tinha levado a perder o controlo.
A humilhação tinha deixado marcas profundas na sua maneira de ser e era, muitas vezes, o motivo pelo qual se expunha em excesso ou até entrava em confrontos físicos.
Procurando ir mais fundo, perguntei-lhe quando tinham começado os sintomas de cólon irritável. Respondeu que tinham surgido na adolescência, quando a relação com o pai se tornou violenta. Recordou que o pior momento foi o dia em que o pai o insultou de forma brutal. António ficou tão revoltado que perdeu o controlo e o agrediu. A culpa que sentiu depois desse episódio provocou-lhe dores abdominais intensas; passou a noite com sintomas tão fortes que não conseguiu sair de casa durante uma semana e acabou por ir parar às urgências.
Reconhecer a personalização liberta-nos dela. E uma defesa que, embora nos proteja, também nos mantém presos precisamente ao que pretendemos evitar, como aconteceu com António.
A resposta rude do bancário não tinha, de facto, nada que ver com ele. O que dizia respeito a António era o modo como, através da personalização, transformou a atitude de alguém externo numa ameaça interna da qual sentiu necessidade de se defender.
Para além disso, o seu cólon voltou a alertá-lo: aquela raiva era demasiado intensa para o seu corpo suportar.
Quando identificamos a personalização, conseguimos devolver ao exterior aquilo que nunca nos pertenceu. As atitudes ou as situações alheias deixam de nos atingir como antes. Criamos uma espécie de membrana protetora e permitimos que os «ban-cários» das nossas vidas lidem com os seus próprios fardos, que não são nossos. Desidentificamo-nos do que não nos diz respeito e cuidamos apenas do que verdadeiramente nos pertence.

Outras defesas que podem surgir e dificultar a identificação da raiz de um problema psicossomático são:

  • Maximização. Defesa em que a pessoa sente necessidade de exagerar o que está a acontecer, recorrendo tanto ao explícito (palavras e comentários) como ao implícito (gestos, sintomas e posturas).
  • Minimização. Defesa que, juntamente com a negação, usamos para nos proteger, reduzindo a importância de situações internas ou externas que, na verdade, são relevantes.
  • Queixa. Defesa em que enfatizamos os aspetos negativos daquilo que nos está a acontecer, do que nos magoa, prejudica ou incomoda. E uma forma de expressar aquilo que não conseguimos tolerar internamente, embora, para quem está à nossa volta, possa tornar-se desgastante. A pessoa que se queixa tende a concentrar-se mais no lado negativo, o que pode intensificar o sintoma ou fazer com que pareça pior do que realmente é.
  • Retroflexão. Detesa que consiste em redirecionar para dentro de nós emoções como a irritação, a frustração ou a raiva, em vez de expressarmos exteriormente o mal-estar que elas nos causam. Essa energia nociva acumula-se no organismo e ativa o nosso sistema nervoso, sendo necessário metabolizá-la de alguma forma. E o que acontece, por exemplo, quando sentimos raiva e, em vez de a expressarmos, guardamo-la e acabamos por prejudicar a nossa saúde. Este processo pode manifestar-se através de dores de cabeça, dores abdominais, má digestão, inflamação articular ou uma intensificação geral da dor.
  • Repressão. Defesa inibitória que consiste em guardar dentro de nós tudo aquilo que não queremos mostrar. Juntamente com a negação e a minimização, funciona como uma barreira que impede a saída de sentimentos, emoções e opiniões que precisam de ser expressos, mas que nao somos capazes de comunicar. É um mecanismo aprendido na infância, como a maior parte das defesas psicológicas.
  • Evitação. Defesa que assenta na recusa de assumir, aceitar, ver ou tomar consciência de certas situações da vida. Podem ser pessoas, conversas, acontecimentos, sentimentos ou sin-tomas. Através desta estratégia, protegemo-nos de entrar em contacto com aquilo que, de algum modo, tememos. Por exemplo, algumas pessoas evitam a todo o custo reconhecer que a sua doença tem uma componente psicológica signifi-cativa, que precisa de ser trabalhada e processada para que os sintomas possam começar a melhorar.
  • Lealdade. Defesa que serve para proteger as figuras de vinculação (como pais, mães ou outros cuidadores) mesmo quando estas foram negligentes ou causaram sofrimento.
    Quando, em crianças, vivemos experiências adversas com essas figuras, desenvolvemos muitas vezes uma postura de proteção, sustentada na crença de que «tivemos os melhores
    pais». Esta defesa impede-nos de processar a realidade tal como a vivemos, levando-nos a encobri-la com a imposição silenciosa de nunca dizer nada de negativo sobre eles. Esta lealdade torçada obriga-nos a tolerar situações injustas ou a negar tactos dolorosos, tudo em nome da proteção do laço e da figura de vinculação. E uma defesa comum em pessoas que sotreram traumas relacionados com os pais, bem como em vítimas de abuso (sexual, emocional, de poder ou físico).

Conhece Natalia Seijo

Natalia Seijo é uma das psicólogas com maior reconhecimento no panorama científico espanhol. É diretora da clínica NS Centro de Psicoterapia e Trauma, na Galiza, codiretora do mestrado em Transtornos Alimentares da Universidade Complutense de Madrid e professora associada no mestrado em Psicoterapia EMDR para Transtornos Psicossomáticos da UNED. É formadora, conferencista, autora de diversos artigos científicos e especialista em trauma complexo, apego, dissociação, transtornos alimentares e psicossomática médica.

Natalia Seijo. Fonte Institut Espasa

Designer, Mestre, Terapeuta de Reiki, Presidente da Associação Portuguesa de Reiki e fundador da Ser - Cooperativa de Solidariedade Social. Autor dos livros «Reiki Guia para uma Vida Feliz», «O Grande Livro do Reiki», «Reiki Usui», entre muitos outros. Fundador do Instituto Educação pela Paz. Acima de tudo quero partilhar contigo o porquê de Reiki ser a «Arte Secreta de Convidar a Felicidade».

Deixe um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

João Magalhães Reiki
Privacidade e proteção de dados

cookies é um termo usado sobre a informação que um site guarda sobre um visitante mesmo que não se registe, no entanto não ficamos com o teu e-mail ou contactos a não ser que os dês.

podes ler mais aqui: https://www.joaomagalhaes.com/o-tao-do-reiki/2018/05/politica-de-privacidade-e-de-protecao-de-dados-pessoais/