Ler à Sexta – Terapeuta de Bolso de Annie Zimmerman
Compreendermo-nos e a nossa relação com o outro… esta é a proposta de Terapeuta de Bolso, da Drª Annie Zimmerman, através da profunda relação com a depressão, ansiedade, trauma, dependência e autocrítica. Este é o caminho do autoconhecimento que nos leva também ao outro e às melhores relações, compreendendo e curando situações como a codependência. Bem-vindo a mais um Ler à Sexta…
Terapeuta de Bolso de Annie Zimmerman
Ao longo do livro, Annie Zimmerman vai aprofundando a nossa relação com as situações mais destruturantes que temos vivendo, como é o caso da ansiedade, trazendo-nos dicas valiosas de reflexão e crescimento:
Sugestões para acalmar momentaneamente a ansiedade
- Religar-se consigo mesmo. Fazer o que for possível para sentirmos que estamos ao comando — nomear objetos que estejam na divisão, usar as mãos para fazer algo, reparar no que podemos ouvir e tocar à nossa volta.
- Respirar. Prolongar a expiração mais do que a inspiração, o que relaxa o sistema nervoso.
- Falar com alguém. Manter as coisas cá dentro pode torná-las maiores. Falar com alguém com quem seja seguro falar sobre o que estamos a sentir pode ajudar a acalmar-nos momentaneamente.
- Escrever. Anotar todos os nossos pensamentos ansiosos para que estes não andem às voltas na cabeça. Sem filtros, podemos expressar-nos livremente.
- Mexer-se. Libertar energia fisicamente ao longo do corpo — dar um passeio, dançar pela sala, fazer uma sessão de pugilismo, gritar para a almofada. Dar espaço para sentirmos as nossas emoções exprimindo-as do modo que o nosso corpo se queira mexer.
- Refletir. Assim que estivermos mais calmos, podemos tentar pensar no que pode ter desencadeado a reação, e se haverá outros sentimentos mascarados pela ansiedade.
Estas ferramentas podem ajudar-nos momentaneamente, mas não vão necessariamente evitar que a ansiedade regresse. São técnicas para lidar com a ponta do icebergue – são úteis no momento, mas para reduzirmos de facto a ansiedade a longo prazo, temos de ir abaixo da superfície.
Toca nos aspectos do apego, apresentando os vários estilos de um apego que um bebé pode ter, ajudando-nos a compreender e detetar alguns padrões que os nossos filhos possam ter.
Como se desenvolve cada estilo de apego?
Dentro de todos nós existe um alarme de apego. Quando éramos bebés, vermo-nos separados dos nossos pais era aterrorizador, porque sem eles morreríamos. Se há demasiada distância, o alarme de apego dispara. Isto aplica-se não apenas à separação física, mas também à separação emocional.
Se um progenitor se mostra desapegado, tenso, ansioso, frio ou distraído, um bebé pressente-o e o alarme de apego dis-para. Os bebés tendem a chorar ou fazer algo para chamara atenção dos pais. Se os pais respondem e se sintonizam com os sentimentos da criança, os bebés aprendem que os pais estão presentes e voltam a sentir-se seguros. Quando um cuidador é de confiança e está presente, torna-se o que se chama uma base segura. Porque a criança sabe que pode voltar para os pais em busca de proteção e segurança, sentem-se então mais confiantes para explorarem e brincarem, correndo mais riscos porque sabem que os pais estarão à sua espera quando regressarem. Se os pais não respondem, ou se respondem de forma inconsistente, desenvolve-se um apego inseguro.
Há duas formas principais de os bebés responderem quando os pais não se mostram recetivos: ansiedade ou defesa. Ou se apegam e pedem atenção ou se desligam e se afastam.
Apego seguro: a criança sente-se confiante e consegue ser confortada. Fica perturbada quando se vê separada dos pais e consegue ser contortada por eles. Quando os pais estão por perto, sentem-se contortadas e seguras o suficiente para explorarem.
Apego ansioso: os bebés tornam-se ansiosos, choram, gritam e tentam chamar a atenção dos pais. Se isso funciona, os bebés aprendem que têm de se apegar e de chorar para conseguirem atenção.
Apego defensivo: se a estratégia não funciona, o bebé vai aprender a parar de chorar e a desligar — porque é mais doloroso chorar sem aparecer ninguém do que parar de chorar.
Esforçar-se-ão por se abrir e por se ligarem profundamente com os outros, já que aprenderam a afastar-se e a confiarem em si mesmos para se sentirem seguros. Porque estamos programados para nos desenvolvermos da forma que os nossos pais querem e porque lemos as mensagens inconscientes que nos ensinam, poderemos também aprender que a autossuficiência é encorajada ao sermos elogiados por não chorar e por não fazermos barulho.
Apego desorganizado/temeroso: o apego desorganizado (ou temeroso) é uma combinação dos estilos ansioso e defensivo. Às vezes, a pessoa sente medo da rejeição e apega-se, enquanto noutras situações se afasta e precisa de espaço.
Isto costuma formar-se quando a criança tem medo dos seus cuidadores, portanto quando o progenitor é mais abusador. Por um lado precisa de amor e de cuidado, por outro tem medo do progenitor, e o medo fá-la oscilar entre os estilos ansioso e defensivo – quer apegando-se quer afastando-se. E a mais nociva torma de apego, porque não há nenhum espaço seguro para onde ir, razão pela qual estratégias como as dependências (que podem funcionar como cuidadores de substituição com que se pode contar) têm muito mais probabilidade de se desenvolverem. Apesar de poderem ajudar a criança a adaptar-se a uma situação assustadora no início da via, levam a problemas graves na vida adulta.
Antes de começarmos a diagnosticar-nos, pensemos no modo como os nossos pais eram recetivos:
A quem recorríamos quando nos sentíamos assustados/perturbados /tristes? Se não recorríamos a um progenitor, perguntemos porquê. Se recorríamos a um progenitor e não ao outro, pensemos no relacionamento com o progenitor a que não recorríamos por comparação com o relacionamento com o progenitor a que recorríamos.
Estavam sobretudo presentes, ou umas vezes estavam e outras vezes não? Não apenas quanto a necessidades físicas, mas também quanto às emoções.
Confiávamos neles para estarem presentes!
Eram capazes de nos confortar?
Sentimo-nos confortáveis para nos abrirmos com eles! Fomos encorajados a expressar as nossas necessidades e a expressar a nossa vulnerabilidade?
Alguma vez sentimos medo deles!
A autora fala-nos também dos vários estilos de apego dos adultos.
Apego seguro: as pessoas com um apego seguro são capazes de dar e receber amor. Sentem-se confortáveis ao abrir-se com os outros e não se esquivam ao compromisso e à intimidade.
Sentem-se seguras nos relacionamentos, o que quer dizer que se podem aproximar e reservar espaço para si quando preci-sam. Desenvolvem uma identidade de alguém que é merecedor de amor e de cuidado. Vai ser este o seu modo mais habitual de ser, mas ninguém está cem por cento seguro o tempo todo — todos temos inseguranças e partes inseguras em nós mesmos, e os nossos alarmes de apego podem ser ativados por pessoas com apegos inseguros.
Apego ansioso: as pessoas com um apego ansioso sentem-se inseguras no amor e na intimidade. Sentem-se muito ansiosas e sensíveis à rejeição, tendem a precisar de muita validação e debatem-se com a distância e a separação. Têm dificuldade em regular as suas próprias emoções e precisam dos outros para as apaziguarem, em vez de serem capazes de o tazerem por si mesmas. Podem tornar-se dependentes, dominadoras e exigentes.
Apego defensivo: as pessoas com um estilo de apego defensivo vão debater-se com a proximidade. Sentem-se muito independentes e tendem a evitar o compromisso ou a intimi-dade. Não contiam nos outros, por isso mantêm-se seguras mantendo os outros à distância. Evitam também sentimentos dificeis ou dolorosos, e negam as suas necessidades de ligação, projetando em lugar disso todas as suas carências nas outras pessoas.
Apego desorganizado/temeroso: Estas pessoas querem e temem ao mesmo tempo os relacionamentos amorosos. Por isso, procuram relacionamentos, mas têm dificuldade em confiar e depender das pessoas. Debatem-se para regular as suas emoções e evitam confiar nas pessoas com medo de se magoarem, ou confiam demasiado nas pessoas e põem-se a jeito precisamente para as coisas que mais temem: abandono e rejeição.
– EXERCÍCIO –
Ao começar a refletir nestas coisas, pode reparar nalguns padrões nos seus relacionamentos, e nalguns temas habituais. Qual é o seu papel? E altamente dependente e está sempre a ajudar os outros? Precisa com frequência dos outros para o fazerem sentir melhor e não consegue funcionar bem sozinho? Costuma ser aquele que mantém a paz ou aquele que começa o conflito? Se examinar o seu papel nos relacionamentos, começará a compreender-se a si
E porque nos projetamos tanto em determinadas situações e relações. Porque quando vemos alguém com determinada atitude, parece que todos os nossos alarmes começam a soar?
Projeção
A projeção é um dos conceitos mais importantes que eu gostaria que toda a gente compreendesse. Uma das formas pelas quais fugimos dos nossos sentimentos e partes inconscientes de nós mesmos é projetando aquilo de que não gostamos acerca de nós mesmos nos outros.
Quando não reconhecemos partes de nós mesmos (que inconscientemente pensamos que são inaceitáveis ou vergonhosas), atribuímo-las aos outros. São sobretudo qualidades desagradáveis, negativas, mas também pode acontecer com qualidades positivas que não reconhecemos em nós mesmos – talvez estejamos obcecados com quão bonitas as outras pessoas são, mas sejamos incapazes de reconhecer a nossa própria beleza. Alguma vez nos sentimos automaticamente aborrecidos com o comportamento de alguém sem razão nenhuma? É provável que estejamos a projetar essa parte de nós mesmos na outra pessoa. A maior parte de nós não se apercebe até que ponto projetamos coisas nos outros.
Annie Zimmerman traz-nos, neste Terapeuta de Bolso, a reflexão e entendimento sobre o que é a codependência e de forma podemos melhorar as nossas relações que podem estar com esse padrão:
O que é a codependência?
Os relacionamentos saudáveis são em grande medida equilibrados e iguais. Têm uma natureza recíproca — «umas vezes, eu tomo conta de ti; outras, tomas tu conta de mim». Os relacionamentos codependentes são unilaterais. Uma pessoa dá quase tudo e sacrifica quase tudo, enquanto a outra recebe. Muitas vezes, isto tem o aspeto de alguém que é muito dependente, que é «carente», e de alguém que se abandona a si mesmo para atender às necessidades do outro. Penso que é esta parte da codependência que é muitas vezes mal compreendida. Muitas pessoas pensam que tem que ver com passarem muito tempo juntas ou cada parceiro depender excessivamente do outro, quando tem na verdade que ver com um desequilíbrio. Num relacionamento codependente, cada pessoa usa de forma inconsciente a outra para expor as suas feridas.
Uma pessoa poderá perder-se e abandonar as suas próprias necessidades, enquanto a outra a usa e explora para preencher as suas próprias necessidades. É um relacionamento enredado em que perdemos o nosso sentido de independên-cia. A codependência é um esbater dos limites. Sentimos que não sabemos onde esses limites começam e acabam, o que torna o elo ainda mais forte e faz com que seja mais difícil abandonar o relacionamento, porque sentimos que não conseguimos existir sem a outra pessoa.
…
Sinais de codependência
- Abandonarmos os nossos desejos e necessidades.
- Sentirmo-nos responsáveis pelos sentimentos das outras pessoas.
- Assumir a culpa ou pedir desculpa para manter a paz.
- Necessitar de aprovação ou de validação dos outros.
- Necessitar de controlar.
- Estar muitas vezes no papel de cuidador num relacionamento.
- Evitar conflitos.
- Fazer coisas que não queremos para deixar os outros
felizes.- Dificuldade de ligação com os sentimentos e em demonstrá-los.
- Idealizar as outras pessoas.
- Pouco amor-próprio e medos profundos de rejeição.
O que este livro me trouxe
Este é um livro muito bem estruturado, com casos reais que nos ajudam a relacionar situações que também a nós nos podem acontecer, e fazendo a ponte com o entendimento e o exercício prático para melhorar a nossa condição. É por isso um livro que acredito que nos pode ajudar a construir uma vida mais pacífica e feliz, pelo seu conteúdo altamente relevante e prático.
Podes ler um excerto do livro aqui…
Podes ler mais sobre a autora e o livro no site da Nascente Editora
Conhece Annie Zimmerman
A Dra. Annie Zimmerman é uma psicoterapeuta, escritora e académica britânica. Tem vindo a desenvolver as suas redes sociais com rápido sucesso no TikTok e no Instagram, onde publica conteúdos sobre terapia, relações e saúde mental. Escreve de múltiplas formas há mais de dez anos – primeiro como blogger, depois como jornalista para revistas e ao longo da sua carreira académica. Tem um doutoramento em psicologia, a sua especialidade, e atende pacientes num consultório privado em Londres.
Em pouco menos de um ano, acumulou mais de 400 mil seguidores em todas as plataformas e os seus vídeos tiveram milhões de visualizações, graças à sua capacidade de transformar conceitos psicológicos complexos em mensagens simples e de fácil apreensão, apresentadas num tom empático.
Podes seguir Annie Zimmerman aqui…



