Ler à Sexta – Amigos Melhores, de Alicia Gonzáles
A amizade ajuda-nos a desfrutar a vida, na sua complexidade, de uma forma mais significativa, tendo também uma espécie de rede de segurança que nos acompanha nesta sensação de pertença que os amigos nos trazem. A questão é que nunca ninguém nos ensinou a como ser amigos, ou acolher o caminho que nos leva à amizade.
Bem-vindo a mais um Ler à Sexta, desta vez, com Amigos Melhores da psicóloga Alicia Gonzáles, um livro contemporâneo, acessível e prático para compreender a amizade e a nós mesmos…
Amigos Melhores, de Alicia González
A autora leva-nos por um livro de entendimento sobre a nossa relação connosco e com os outros. Porque razão algumas situações familiares nos trouxeram feridas e como elas afetam as nossas relações neste preciso momento.
As feridas emocionais: de como me senti a como me sinto
Além dos estilos de apego, será interessante abordar as feridas emo-cionais. As feridas emocionais são as sequelas de momentos trauma-ticos ou situações dolorosas repetidas ao longo do tempo em idades muito jovens. Não é sequer necessário sentir que tivemos uma infância dura para que essas feridas existam em nós. Anabel González, psiquiatra especialista em trauma, defende que, senão mesmo todos, a maior parte de nós possui uma ou mais feridas emocionais.
Se, como adultos, viajássemos no tempo e observássemos essas situações que foram dolorosas para a nossa criança interior, talvez as considerássemos meras tontices, justificando-as automaticamente.
Essas feridas, no entanto, criaram-se através do olhar de uma criança e da sua maneira de compreender a realidade; não têm obrigatoriamente de ser resposta a acontecimentos traumáticos – podem surgir como resultado de um acumular de situações que, ainda que hoje pudéssemos encarar como comuns, nos foram dolorosas.
Talvez tenha sido o momento em que pedi ajuda à minha mãe e ela, por estar a fazer o jantar, irritada porque se aproximava a hora de eu ir para a cama, não ma deu. Aquilo que eu, todavia, interiorizei foi que o meu problema, a minha necessidade, não era tão importante como o que ela estava a fazer no momento; nesse meu sentir de criança, julguei que a minha mãe me estava a rejeitar, senti que eu não era uma prioridade para ela. Talvez tenha sido o momento em que o meu pai não me deu o beijo que lhe pedi, pois tinha acabado de fumar um cigarro às escondidas – estava a tentar deixar de fumar — e não queria cheirar a tabaco ao pé de mim.
Aquilo que eu assimilei, no entanto, foi que ele não quis dar-me um beijo porque isso não era assim tão importante para ele e porque naquele momento não lhe apetecia fazê-lo.
Acontece com as feridas emocionais aquilo que acontece com as feridas físicas: se as ignorarmos e escondermos, em vez de as curarmos, corremos o risco de que fiquem infetadas ou putrefactas, isto é, podem tomar as rédeas da nossa vida e deixar-nos com uma sensação de impotência e frustração, fazendo-nos pensar que somos pessoas naturalmente azaradas.
Alicia Gonzáles traz-nos também algumas reflexões sobre as conhecidas “feridas”, neste caso, a do abandono:
A ferida do abandono
Esta ferida é feita na infância, quando sentimos a ausência fisica ou emocional dos nossos progenitores, seja de um deles ou de ambos. Há muitos acontecimentos «comuns» que podem dar origem a esta circunstância e perceção: o nascimento de um irmão, a doença de um dos pais, que os progenitores trabalhem muitas horas enquanto o filho fica ao cuidado de outras pessoas…
A consequência desta ferida é termos a absoluta necessidade de nos sentirmos valiosos, queridos e seguros, mesmo que isso não signifique procurarmos sempre relações saudáveis. Tenho acompanhado um sem-número de pessoas nas minhas sessões com uma ferida de abandono muito evidente, todas elas apanhadas nas redes de relações tóxicas ou intermitentes, as quais repetiam, aumentavam ou mantinham essa ferida aberta.
Na amizade, precisamos estar completamente presentes sobre o contrato que nela queremos viver, para isso é importante a escuta desse mesmo contrato – o que eu quero?
Escuto quem sou: o que quero eu numa amizade?
Convido-te a criar um mural inspirador, ou moodboard da ami-zade, o qual é nada mais, nada menos, do que uma colagem sobre a vida.
- Procura na Internet ou em revistas fotografias de tudo aquilo que a amizade simboliza para ti. Inclui também o que é negativo ou incómodo. Ou seja, aquilo pelo qual estarias disposto a passar, aquilo que estarias disposto a perdoar, a aguentar, a acompanhar… Não te foques apenas em coisas bonitas e fofinhas.
- Cria uma composição com todas as imagens.
A solidão é uma ratoeira.
Quando nos acostumamos a ela, e chegamos até a desfrutar dela, pode tornar-se viciante, e libertarmo-nos disso transforma-se num trabalho hercúleo.
Quando acreditamos realmente que estamos bem sozinhos, ao ponto de não necessitarmos de ninguém, construímos uma ratoeira e metemo-nos dentro dela. Com o passar do tempo, o nosso amigo deixa de telefonar e, de repente, perguntamo-nos como estará ele, sentiremos vontade de lhe contar qualquer coisa, teremos vontade de o ver, talvez estejamos a precisar da sua ajuda, mas seremos incapazes de lhe escrever ou telefonar. E sabes por-quê? Porque nos vamos sentir estranhos, incómodos. Iremos pensar:
«Depois de tanto tempo, tenho vergonha de lhe pedir que apareça.
O que irá ele pensar de mim?» Enfiados que estamos na nossa ratoeira, ansiamos ter uma ligação com alguém, mas seremos nós próprios a negá-la. É neste momento que começamos a experimentar a solidão como algo extremamente negativo e triste. Repare bem na velocidade com que a solidão passa de nossa fortaleza a prisão. Isso, em larga medida, dá-se porque não interiorizamos que, por muito que gostemos de estar sozinhos, precisa-mos das outras pessoas. Precisamos de contacto, de um olhar, um sorriso, um abraço. Negá-lo é perder tempo, além de que é perigoso, uma vez que pode levar-nos a ter comportamentos tóxicos para connosco próprios.
Conhecendo-nos a nós mesmos, podemos começar a compreender o outro, evitando mágoas e ressentimentos…
DICA: PENSA NO OUTRO ANTES DE AGIR
Antes de julgares alguém porque sentes que essa pessoa te «ignora», pensa nas circunstâncias de vida que a rodeiam: estara a passar por algum momento de stresse? Aconteceu alguma coisa na sua vida? Tem de lidar com muita coisa em simultâneo? Tenta lembrar-te de alguma vez em que tenhas sido tu a desligar-te de uma amizade (seja esta ou outra qualquer) por motivos alheios à pessoa em questão. Depois de teres perdido um momento a considerar estas questões, decide como atuar – nunca antes.
O que este livro me trouxe
A amizade é um dos temas que creio ser sempre difícil de navegar ao longo da vida. Não viemos com um manual de instruções, mas também ninguém nos ensina a compreender o que é a amizade. Tantas coisas correm mal por não sabermos o básico. Este livro, que tão agradavelmente me surpreendeu, trouxe esta lufada de ar fresco sobre o tema. Apreciei bastante Amigos Melhores e acredito que é um dos livros que nos pode ajudar a uma vida mais pacífica e feliz.

Lê um excerto do livro aqui…
Lê mais sobre o livro e a autora no site da Pergaminho…
Conhece Alicia Gonzáles
Sou psicóloga e mãe. Desde o primeiro momento em que entrei numa consulta de psicoterapia, apaixonei-me profundamente pelas relações humanas. Por isso, dedico o meu tempo a acompanhar as pessoas no seu caminho de reparação de vínculos afetivos que precisam de novas formas de funcionar, para que aprendam a soltar, com amor, aqueles que já não lhes trazem bem, e a fazer divulgação nas redes sociais para criar espaços seguros onde construir relações sãs.



