Por que criticar medicinas alternativas? – Um esclarecimento necessário e enquadrado no Reiki
Em 12 de junho de 2020, Wasim Aluísio Prates Syed escreveu um artigo sobre “Por que criticar medicinas alternativas?”, na Revista Questão de Ciência (online). Num contexto de pandemia e de necessidade de clarificação sobre as vacinas ou a opção de não se vacinar, muita coisa foi dita e naturalmente que alguma iria chegar às PICS – Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, na qual Reiki está inserido.
Sobre todas as outras nada poderei dizer pois não são a minha especialidade, mas sobre Reiki há algumas observações neste artigo que têm um caracter muito subjectivo e, por outro lado, uma objetividade muito parcial que convém escrever.
Mas antes, pretendo também contextualizar a minha necessidade de providenciar um esclarecimento. Existem três razões:
- Nós, praticantes de Reiki, devemos cada vez demonstrar Reiki como Reiki;
- A crítica e o receio farão sempre parte, cabe a nós saber lidar positivamente com eles, trazendo esclarecimento e construindo pontes necessárias;
- O trabalho de investigadores científicos, académicos e mesmo de professores que têm inserido as PICS nos seus programas de educação, devem ter uma sustentação e apoio.
Nós, praticantes de Reiki, devemos cada vez demonstrar Reiki como Reiki
- Em 2025 há já bastante conhecimento suficiente para sabermos o que é Reiki, de onde veio, desde há quanto tempo e o seu propósito. Por vezes temos que corrigir ideias e manuais, formas de ensinar, mas tudo isso faz parte do próprio propósito do método – a Melhoria Contínua.
- Reiki como Reiki? Se alguém acredita em anjos isso é válido enquanto sua crença, mas criar um método de Reiki dos Anjos, não contribui para um entendimento de Reiki como Reiki. Da mesma forma se acredita em abundância, não precisa fazer o Reiki Abundância, mas pode criar à vontade o seu próprio método.
- Se gostamos de ver Reiki em hospitais, em lares de terceira idade, no apoio a animais, temos que pensar em mais do que acreditamos, temos que ver que há toda uma base apresentada para essas realidades que nada têm a ver com métodos que são criados agora e difundidos como Reiki.
A crítica e o receio farão sempre parte, cabe a nós saber lidar positivamente com eles, trazendo esclarecimento e construindo pontes necessárias
- O tempo deste artigo foi bastante conturbado, existindo grandes polaridades. Que aprendizagens retiramos desses tempos? Se não se retirou nenhum, se não se continua esclarecimento, apoio à saúde e entendimento humano, de nada adiantou enquanto crescimento individual, comunitário e de sociedade.
O trabalho de investigadores científicos, académicos e mesmo de professores que têm inserido as PICS nos seus programas de educação, devem ter uma sustentação e apoio
- Sempre que um trabalho científico ou académico é realizado, ele torna-se altamente escrutinado pelos seus pares, é sempre um risco tomado e cada praticante de Reiki deve ter isso em atenção, que há pessoas que arriscam a sua credibilidade, a sua via académica e profissional por algo que acreditam poder contribuir para um bem de cada pessoa.
Por que criticar medicinas alternativas? – Um esclarecimento necessário e enquadrado no Reiki
Wasim Syed começa por contextualizar as PICS, dando a referência da sua descrição, mas indicando desde o primeiro momento que a existência de “forças”, “energias”, ou “meridianos”, carecem de base científica.
As Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) são terapias oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para tratar, geralmente, doenças crônicas, como hipertensão e depressão. As PICS são complementares porque, em termos ideais, devem ser prescritas como “um tcham a mais” junto à terapia convencional.
Hoje, há 29 terapias desse tipo oferecidas pelo SUS. Algumas, que envolvem atividade física, meditação ou o uso de plantas medicinas (fitoterapia) podem ter efeitos mensuráveis e cientificamente comprovados sobre a saúde humana, ainda que sua aplicação por “terapeutas” sem formação formal em medicina, educação física ou psicologia/psiquiatria traga riscos. Muitas das demais, no entanto, apelam para forças, “energias” ou conceitos anatômicos (como os “meridianos” da acupuntura) cuja existência carece de base científica.
Dentre essas terapias, todas descritas no site do Ministério da Saúde, estão a Homeopatia, Florais de Bach, Ozonioterapia, Naturopatia e Reiki.
Em 2024 foi publicado um estudo intitulado “Uma revisão da estratégia da OMS sobre medicina tradicional, complementar e integrativa na perspetiva dos consórcios académicos para a medicina integrativa e saúde“
O estudo destaca que a Organização Mundial da Saúde (WHO) atribui grande importância às Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI), reconhecendo seu papel essencial na promoção da saúde global. A WHO observa que cerca de 80% da população mundial recorre a algum tipo de MTCI e, por isso, defende a integração dessas práticas aos sistemas nacionais de saúde, desde que fundamentadas em evidências sólidas de segurança e eficácia. A abordagem da WHO valoriza o cuidado centrado na pessoa, a relação médico-paciente e a individualização do tratamento, considerando a MTCI uma aliada fundamental na resposta aos desafios das doenças crônicas, promoção da saúde e bem-estar populacional.
Além disso, a WHO incentiva o desenvolvimento de políticas públicas, diretrizes regulatórias e o financiamento de pesquisas científicas que comprovem a eficácia e a segurança das MTCI. O texto ressalta que a integração responsável, harmonizada e baseada em evidências dessas práticas ao sistema biomédico é vista pela WHO como um caminho para melhorar o acesso a tratamentos, reduzir custos em saúde e fortalecer o foco na prevenção e na promoção da saúde, atendendo às necessidades reais das populações em diferentes contextos culturais e sociais.
Curiosamente este estudo também participaram dois brasileiros Ricardo Ghelman e Caio Portella de faculdades reconhecidas. (Brazilian Academic Consortium for Integrative Health and Department of Medicine on Primary Care, Faculty of Medicine Federal University of Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brazil; Brazilian Academic Consortium for Integrative Health and Universidade de São Paulo, Disciplina de Ginecologia, Departamento de Obstetrícia e Ginecologia, Faculdade de Medicina FMUSP, São Paulo, Brazil).
Portanto, tendo um reconhecimento de necessidade, é preciso que haja mais evidência dos benefícios de Reiki. É o trabalho que muitos vêm vindo a fazer.
Avançando para a apresentação sobre Reiki no artigo de Wasim Syed, o autor indica:
Reiki
O Reiki é uma prática de “canalização da energia” por imposição de mãos, semelhante a um passe espírita. De acordo com o Ministério da Saúde, “busca fortalecer os locais onde se encontram bloqueios – ‘nós energéticos’ – eliminando as toxinas, equilibrando o pleno funcionamento celular, e restabelecendo o fluxo de energia vital – Qi”. A prática que conhecemos é ocidentalizada (ou apropriada) do Japão. Indico o vídeo do canal Física e Afins sobre o tema. Existem estudos a respeito, com resultados nada bons ou ainda piores.
O autor apresenta dois estudos de revisão sistemática de 2008 e 2009, portanto com mais de uma década. Mesmo tendo sido publicado em 2020, numa publicação de carácter científico é escolher análises muito redutoras. Em 2025, existem pelo menos >590 estudos científicos e académicos:
- Effects of reiki in clinical practice: a systematic review of randomised clinical trials
- A systematic review of the therapeutic effects of Reiki
Este é o célebre “Cherry Picking“, ou seja, de uma amplitude de estudos, opta-se por aqueles que possam unicamente ser negativos (ou até demasiado positivos), que cheguei também a mostrar no esclarecimento ao artigo de David Marçal “O reiki é magia sem sentido nos cuidados de saúde”. Então, hoje em dia o que podemos encontrar em termos de estudos que contrapões Lee 2008 – PMIDs 18410352; Gijsen 2009 – PMID 19922247?
Reiki e Qualidade de Vida — meta-análise de ECRs (2025) — Liu K. et al., Systematic Reviews.
- Conclusão: melhoria significativa da qualidade de vida (SMD≈0,28; IC95% 0,01–0,56), com efeitos mais robustos quando ≥8 sessões ≥60 min ou intervenções agudas ≤20 min.
- Como contrapõe 2008/2009: inclui ECRs mais recentes e maior amostra total; analisa dose-resposta, ausente nas revisões antigas. BioMed Central
- HP-0573 (“Effects of Reiki therapy on quality of life: a meta-analysis of randomized controlled trials”).
Ansiedade — revisão sistemática (2024) — Guo X. et al., BMC Palliative Care.
- Conclusão: intervenções curtas (≤3 sessões) e de 6–8 sessões reduzem ansiedade em várias condições; resultados mistos em pré-operatório/oncologia exigem estudos adicionais.
- Contraponto: já demonstra efeitos consistentes em subgrupos, algo não observado em 2008/2009 por falta de ECRs. BioMed Central
- HP-0535.
Dor — meta-análise (2018) — Doğan MD. et al., Complementary Therapies in Clinical Practice.
- Conclusão: redução significativa da dor com Reiki vs. controlos/sham.
- Contraponto: acrescenta síntese quantitativa que não existia nas revisões de 2008/2009, aumentando poder estatístico. ScienceDirect
- HP-0273.
Dor em Oncologia — revisão sistemática (2023) — Avcı A., Gün S., Holistic Nursing Practice.
- Conclusão: 5 de 7 estudos apontam redução da dor em doentes oncológicos; evidência limitada mas favorável.
- Contraponto: foco oncológico específico com estudos recentes e amostras maiores que em 2008/2009. Lippincott JournalsPubMed
- HP-0491.
Dor & Ansiedade em Adultos — revisão com tamanhos de efeito (2014) — Thrane S., Cohen S.M., Pain Management Nursing.
- Conclusão: tamanhos de efeito sugerem eficácia do Reiki em dor e ansiedade.
- Contraponto: primeira síntese com cálculo de efeitos (não apenas narrativa), avançando face às conclusões “insuficientes” de 2008/2009. painmanagementnursing.org
- HP-0144.
Biofield therapies (inclui Reiki) — best-evidence synthesis (2010) — Jain S., Mills P.,
- Conclusão: evidência forte para redução de intensidade da dor em populações com dor; moderada para dor em internados/oncologia e para ansiedade em internados.
- Contraponto: já em 2010 sinalizava benefícios em outcomes clínicos (especialmente dor), contrariando a ideia de “valor não comprovado” de 2008. PubMedNCBI
- HP-0095.
Fadiga — meta-análise (preprint, 2025) — Chen J. et al., Research Square.
- Conclusão: tendência favorável do Reiki na redução da fadiga; recomenda mais ECRs de alta qualidade.
- Contraponto: explora um desfecho relevante não tratado em 2008/2009, ampliando o corpo de evidência positiva. researchsquare.com
- HP-0567.
| ID (ficheiro) | Autor(es), Ano | Tipo de Estudo | N (amostra total) | Outcome(s) principais | Resultados / Efeitos | Observações (contraponto 2008/2009) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| HP-0573 | Liu K. et al., 2025 | Meta-análise (ECRs) | >400 | Qualidade de vida | SMD≈0,28 (IC95% 0,01–0,56), efeito maior ≥8 sessões ou intervenções agudas | Mostra dose-resposta, ausente nas revisões antigas |
| HP-0535 | Guo X. et al., 2024 | Revisão sistemática | 10+ ECRs | Ansiedade | Efeitos consistentes em intervenções curtas e de 6–8 sessões | Aponta eficácia em subgrupos, não identificado em 2008/2009 |
| HP-0273 | Doğan MD. et al., 2018 | Meta-análise | 7 ECRs | Dor | Redução significativa da dor (p<0,05) | Primeira síntese quantitativa robusta em dor |
| HP-0491 | Avcı A., Gün S., 2023 | Revisão sistemática | 7 estudos | Dor oncológica | 5/7 estudos com redução de dor | Evidência mais específica e clínica do que 2008/2009 |
| HP-0144 | Thrane S., Cohen SM., 2014 | Revisão sistemática + efeitos | 12 estudos | Dor & Ansiedade | Tamanhos de efeito favoráveis | Primeira a calcular efeitos em vez de apenas narrativa |
| HP-0095 | Jain S., Mills P., 2010 | Best-evidence synthesis | 66 estudos biofield (incl. Reiki) | Dor & Ansiedade | Forte evidência em dor; moderada em ansiedade | Já em 2010 mostrava resultados contrários à “insuficiência” |
| HP-0567 | Chen J. et al., 2025 (preprint) | Meta-análise | 9 estudos | Fadiga | Tendência favorável à redução da fadiga | Explora outcome não considerado em 2008/2009 |
Estes são apenas alguns dos estudos que contrapõem mostrando benefícios na aplicação de Reiki nos seus vários contextos.
O autor avança para alguns “argumentos comuns” que encontra quando alguém lhe tenta contrapor com os benefícios das PICS.
Eu faço uma dessas terapias e faz diferença pra mim! E aí?
Sim, você pode tomar homeopatia e, de alguma forma, provavelmente verá algum resultado. A homeopatia ou qualquer pseudociência é “confirmada” quando um paciente alérgico para de ter alergia, ou uma dor de garganta passa. Mas relacionar isso ao uso de homeopatia e não, por exemplo, ao curso natural da doença, a mudanças de dieta ou ambiente, a outros medicamentos usados ou, mesmo, ao efeito placebo, é perigoso. Correlação não define causa.
É exatamente o mesmo argumento que os apoiadores da cloroquina usam: “usei quando estava com COVID-19 e melhorei, logo a cloroquina é a cura”. Sendo que, em cerca de 90% dos casos, o vírus some sozinho, sem que se faça nada além dos cuidados mais óbvios, como repouso e hidratação.
O número de casos de autismo aumentou na mesma proporção do consumo de vegetais orgânicos no mundo, mas isso comprova que o autismo é causado por orgânicos (ou por outras coisas que também têm aumentado com o passar do tempo, como o uso de vacinas ou as assinaturas de TV a cabo)? Não.
É verdade que a biomedicina tem as necessárias comprovações sobre os seus medicamentos, no entanto, tudo começa a mudar, e temos o paradigma centrado no doente (patient-centered care), onde o bem-estar subjetivo do doente é tão importante quanto os parâmetros biomédicos. Organizações como a OMS e o Institute of Medicine (EUA) reforçam a necessidade de incluir percepções, preferências e experiências nas práticas de saúde (ver os links de referência nas palavras).
Várias pessoas que cuido com Reiki, ao enfrentarem doenças incapacitantes, sentem que Reiki e outras práticas as ajudam a encarar o seu dia, cada momento, a dor e os efeitos secundários dos tratamentos médicos necessários. Da Faculdade de Medicina, Programa Ciências da Saúde, Universidade
Federal de Goiás, saiu um estudo “Association between spirituality/religiousness and quality of life among healthy adults: a systematic review” que valoriza a espiritualidade da pessoa na relação com a sua qualidade de vida. O trabalho mostra que ter espiritualidade ou religiosidade pode ajudar adultos jovens e saudáveis a lidarem melhor com desafios do dia a dia, a serem mais otimistas, a sentirem-se mais felizes e até a terem melhores relações sociais — contribuindo para uma vida com mais qualidade, mesmo sem estarem doentes.
Como o artigo foi escrito na altura da pandemia, vale também a pena reforçar com dois estudos realizados:
Experiências com uma intervenção de Reiki à distância (DiBenedetto, 2021)
Estudo exploratório de design misto, conduzido por uma enfermeira, mostrou redução estatisticamente significativa no stress e ansiedade percebidos, além de promover autoconsciência, autorreflexão e autodescoberta por meio de duas sessões remotas de Reiki realizadas via plataforma virtual PMCANS: Advances in Nursing Science Blog.
Experiences With a Distant Reiki Intervention During the COVID-19 Pandemic… PMC
Programa pragmático de Reiki remoto para profissionais de saúde de linha de frente (Dyer et al., 2023, Reino Unido)
Ensaio piloto com profissionais de saúde do Reino Unido, que receberam Reiki remoto — 20 minutos por dia durante quatro dias consecutivos — e apresentaram reduções significativas em stress, ansiedade e dor, além de melhoras no bem-estar e na qualidade do sono PubMed.
Evaluation of a Distance Reiki Program for Frontline Healthcare Workers’ Health-Related Quality of Life During the COVID-19 Pandemic PubMed
A Fé cura! Não podemos ser prepotentes usando a ciência
Já fui espírita e adorava a sensação que as mãos na minha cabeça geravam. Não é Reiki, mas é a mesma coisa. Particularmente, saía muito relaxado das sessões, como se a energia “ruim” fosse liberada do meu corpo. Tomava até água “energizada”, que havia recebido o passe espírita. Mas são outros quinhentos quando uma prática religiosa/filosófica é colocada no mesmo patamar de importância que a medicina moderna.
Se essa prática religiosa (que depende da fé) – assim como a homeopatia de certo modo – é oferecida pelo SUS, um sistema que deve basear suas escolhas em critérios científicos -, por que não financiamos exorcismos com o orçamento da Saúde?
A fé pode ser um ponto de apoio importante para certos pacientes em tratamento, mas a fé é uma questão pessoal, de foro íntimo. Não cabe ao Estado ou ao sistema público de saúde validá-la, ou usá-la como trampolim para subsidiar práticas pseudocientíficas. Se a “energia quântica” das ultradiluições homeopáticas curam infecções, por que não usar homeopatia para curar ou prevenir o novo coronavírus e o sarampo (como querem os grupos antivax)? Simples, não?
O fato é que nada no universo é tão simples quanto uma ideologia ou uma filosofia “holística” faz parecer. E, a cada relativização do conhecimento, um cientista é menosprezado pela população e pelo governo.
Bem verdade que “nada no universo é tão simples quanto uma ideologia ou uma filosofia holística faz parecer”, e o mesmo aparenta ser com Reiki, mas isso é quem realmente não conhece a profundidade da prática e o caminho que nos leva a percorrer na sua filosofia de vida. O simples é superficial, mas o profundo é que nos leva a continuar e a querer compreender. Reiki não é uma religião, nunca o foi, nem é um movimento espiritual, nunca o foi. Mas é um método para a melhoria do corpo e da mente, naturalmente assente numa cultura japonesa multifacetada, mas também absolutamente orientada para o contacto da pessoa consigo mesmo e com a natureza. No Memorial do Mestre Usui, em Tóquio, está escrito por Masayuki Okada “O propósito principal da terapia Reiki não é apenas cuidar a doença mas também ter saúde e paz na mente e no corpo e desfrutar a vida”. Entre 1922 e 1926 o Mestre Usui escreveu no seu manual “estudiosos e homens sábios têm estudado este fenómeno, mas a ciência moderna não pode resolvê‑lo. Mas eu acredito que esse dia virá naturalmente”.
E assim espero que sim, pois recusar à partida investigar e dar condições de investigação é ir contra a própria ciência.
A medicina alternativa é interessante porque considera todo o indivíduo, e não a doença
Em toda prática alternativa repete-se que “a cura do indivíduo é mais importante do que a doença”. Enxergam-se as manifestações clínicas do paciente como um resultado da vida, do conjunto de emoções do indivíduo. Na homeopatia, entre colegas do meu curso (faço Farmácia na FCFRP-USP), essa visão “psicossocial” é geralmente usada como validação da prática, ainda que muitos deles não reconheçam a homeopatia como pseudociência.
Um médico que aplica alguma dessas práticas que listei tem sempre um comportamento mais empático do que os “médicos convencionais”, já que procura entender todos os aspectos da vida do paciente para prescrever o melhor medicamento/prática.
Mas apoio emocional e psicológico é uma tarefa profissional, não algo a ser oferecido como um “extra” numa espécie de combo-placebo. Relativizar o papel de um profissional psicólogo é um sintoma da “coachização” das profissões. É um sintoma de que consolidamos (ou estamos consolidando) “metodologias freestyle” em detrimento desses profissionais.
Concordo, que o apoio emocional e psicológico é uma tarefa profissional e devia ser mais amplamente disponibilizada. Neste contexto Reiki, enquanto filosofia de vida, não se sobrepõe à psicologia ou a qualquer psicoterapia reconhecida. Uma filosofia de vida é um tomar de consciência sobre si mesmo e um caminho a seguir ao longo de pilares fortes que ajudam a pessoa a encontrar-se e a deparar-se com aquilo que a retém no equilíbrio e harmonia da vida. Apesar de Reiki não ser uma religião, ou não equipararmos uma filosofia de vida à crença de uma religião, não deixa de ser interessante o que já hoje se estuda sobre a importância da crença, do acreditar em algo.
De Harvard saiu um estudo intitulado Religion and Mental Health: Is the Relationship Causal? (Religião e saúde mental: a relação é causal?), onde se indica que a participação religiosa é protetora contra depressão, suicídio e abuso de substâncias, com evidências consistentes em múltiplos contextos internacionais. É uma revisão de mais de 32 estudos longitudinais (com amostras ≥ 1 000) mostra que 77% dos que avaliaram frequência a serviços religiosos encontraram associação protetora contra depressão e também aponta que maior envolvimento religioso está associado a menor risco de suicídio e menor uso/abuso de drogas ou álcool. Além disso, existe evidência consistente de uma associação longitudinal entre religiosidade e indicadores positivos de bem-estar psicológico — como felicidade, satisfação com a vida, sentido e propósito.
Tocando novamente no aspecto de pessoas com doença oncológica e nos relatos que vivenciei, há um estudo realizado na Alemanha que apresenta também grandes benefícios da aplicação de Reiki em mulheres com cancro de mama.
Introdução/Contexto
O cancro da mama é o cancro mais comum nas mulheres e o segundo mais comum em geral. Embora a quimioterapia seja o tratamento padrão para muitas doentes com este tipo de cancro, está associada a vários efeitos secundários que requerem cuidados de suporte. Além das terapias médicas padrão, as pacientes podem beneficiar de tratamentos complementares, como a terapia desportiva ou o Reiki. O Reiki é um método oriental que promove a cura a nível físico, mental e emocional e ativa poderes de autocura. O objetivo deste estudo foi comparar a eficácia do Reiki versus o Desporto como tratamento de suporte durante a terapia sistémica primária do cancro da mama em fase inicial no estudo REASSURE.
Metodologia
O REASSURE foi um ensaio clínico prospetivo, randomizado, controlado e com dois braços, no qual doentes com cancro da mama receberam quimioterapia e Reiki (18 vezes) ou quimioterapia e desporto (18 vezes). Esta avaliação centrou-se especificamente nos doentes que receberam quimioterapia neoadjuvante com quatro ciclos de Epirrubicina e Ciclofosfamida, seguidos de 12 ciclos de um Taxano. Todos os doentes foram incluídos no estudo REASSURE e randomizados antes do primeiro ciclo de quimioterapia. Enquanto a terapia desportiva foi administrada como fisioterapia convencional, o Reiki foi administrado por um praticante de Reiki treinado. Realizamos uma análise estatística utilizando testes de soma de postos de Wilcoxon para comparar a incidência de eventos adversos (neutropenia febril (NFP), febre, infeção, variação do hemograma, hospitalização), modificações da dose (suspensão da terapêutica, interrupção da dose, redução da dose) e a utilização de tratamentos convencionais de suporte médico (G-CSF, antibióticos, transfusão de sangue, transfusão de plaquetas).
Resultados
Foram incluídos 48 indivíduos, dos quais 27 receberam Reiki e 21 receberam tratamento desportivo. Ao comparar os eventos de FNP entre os dois grupos, encontrámos 3 eventos no grupo desportivo, enquanto nenhum no grupo Reiki (p = 0,047). A mediana do número de aplicações de GCSF foi de 4 (variação de 0 a 8) no grupo desportivo versus 0 (variação de 0 a 8) no grupo Reiki (p = 0,006). Para todos os outros parâmetros, o cálculo dos intervalos de confiança a 95% não mostrou diferença clinicamente significativa entre os dois grupos.
Conclusão
O Reiki pode representar uma opção viável de tratamento médico alternativo ao desporto como opção de terapia de suporte para combater os efeitos secundários da quimioterapia neoadjuvante com Epirrubicina, Ciclofosfamida e Taxano no tratamento do cancro da mama. Para melhor compreender a influência benéfica desta terapia, são necessárias mais pesquisas para comparar o Reiki com um grupo de controlo que não recebeu terapia adicional.
Declarações
Estudo REASSURE – Este estudo é um estudo colaborativo entre a Frauenklinik Rechts der Isar, a Frauenklinik des Rotkreuzklinikums, a Frauenklinik der München Klinik Harlaching e a ProReiki – Berufsverband e.V. Não houve financiamento.Fonte: IJGC Tese da Fakultät für Medizin aqui…
Resumindo, eu acredito que Wasim Syed está a fazer o seu melhor dentro daquilo que acredita. Mas por outro lado, entra em campos que não são tão lineares quanto um excel, é o campo da pessoa enquanto pessoa, do seu sofrimento e de estratégias que possam ajudá-la a lidar com ele. Reiki e só posso falar sobre Reiki, não tem o lugar de substituir a biomedicina ou a psicologia, é simplesmente um método que se apresenta natural, no campo bioenergético, na promoção do bem-estar, do cuidado, do amparo da pessoa. Reiki tem algo de maravilhoso, não de misterioso – ele toca interiormente e só mesmo experimentando, vivenciando, com quem é competente para tal, é que se pode realmente reconhecer.
Que todos possamos fazer um bom trabalho, em prol de um bem comum.
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Fonte do artigo: revistaquestaodeciencia.com.br
Wasim A. P. Syed é divulgador científico pelos projetos Vidya Academics e União Pró-Vacina e graduando em Farmácia pela FCFRP-USP
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Um comentário
Sonia Teles
Que maravilhosa matéria, enche a alma de luz e amor , com um rico conteúdo, essencial para a evolução de todos nós!!
Parabéns João !!