Ler à Sexta – Como se libertar de um narcisista, de Sarah Davies
Há uma série de fatores na origem e no desenvolvimento de uma personalidade narcísica. Existem algumas evidências que sugerem que a perturbação de personalidade narcísica é herdada geneticamente, e várias investigações acrescentam a isso diferenças bioquímicas fundamentais na constituição de pessoas com problemas antissociais e comportamentais — algo que também pode ser hereditário. Contudo, em última análise, acredito que o ambiente e as experiências da primeira infância têm a influência mais significativa na formação e no desenvolvimento da PPN.
São comummente reconhecidos dois tipos, extremos e contrastantes, de experiências parentais e da infância relacionados com o desenvolvimento de traços narcísicos ou tipos de personalidade narcísica. Um deles é sofrer negligência ou abuso significativo em criança. O outro, que é exatamente o oposto, envolve uma infância de parentalidade em demasia ou familiares/cuidadores que consistentemente elogiaram de mais, sobrestimaram e exageraram as competências da criança. Qualquer um dos extremos não é saudável e está comprovadamente relacionado com o desenvolvimento de personalidade e traços narcísicos.
Bem-vindo a mais um Ler à Sexta, com “Como se libertar de um narcisista, de Sarah Davies.
Como se libertar de um narcisista, de Sarah Davies
São inúmeras as vítimas do narcisismo e, por vezes, ficam completamente destruídas pela confusão que é gerada pelo narcisista. Por vezes, parece que a nossa realidade é um pesadelo do qual não conseguimos sair, até sermos forçados…
São muitas as pessoas que se sentem confusas quanto à razão pela qual estão a ter problemas, e essa pode ser uma posição assustadora. As experiências comuns, entre estes pacientes, incluem:
- um sentimento de confusão – sobre a relação, o próprio discernimento e a forma como interpretam as situações;
- baixa autoestima;
- a convicção séria de «não sou suficientemente bom» ou de simplesmente não ser «suficiente»;
- dúvidas sobre si próprio;
- perda angustiante de identidade («Já não sei quem sou»);
- ataques de pânico e/ou ansiedade;
- depressão e/ou desespero;
- sintomas de trauma e/ou PSPT [perturbação de stress pós-traumático];
- problemas com alimentação (comer em excesso ou de maneira insuficiente);
- problemas de sono — acordar de repente durante a no1-te, não conseguir dormir, dormir demasiado;
- nervosismo;
- paranoia;
- sintomas ou comportamentos/rituais de características obsessivo-compulsivas;
- isolamento, falta de apoio, sensação de que os amigos ou colegas não compreendem ou não veem o problema;
- sentimentos de culpa e vergonha;
- fadiga;
- negação;
- pouca ou nenhuma noção de limites pessoais, incapacidade para dizer «não»;
- problemas frequentes de saúde física relacionados com stress (por exemplo, síndrome do intestino irritável, dores, problemas de pele, doenças autoimunes);
- stress e esgotamento;
- ideação suicida;
- em casos extremos, a sensação de estar prestes a ter um esgotamento nervoso ou mesmo de estar já a vivê-lo.
As queixas mais comuns dos pacientes, na primeira ou nas primeiras sessões, que sofreram recentemente ou estão a sofrer abuso narcísico, incluem:
- «Sinto que estou a enlouquecer.»
- «A culpa é minha.»
- «Nada do que faço é suficiente.»
- «O problema sou eu.»
- «Não consigo lidar com isto.»
- «Não percebo o que se está a passar.»
- «Não sou suficiente.»
- «O problema sou eu ou os outros?»
- «Sinto-me perdido.»
- «Já não sei quem sou…».
- «Estou uma pilha de nervos.»
- «Não consigo confiar no meu próprio discernimento.»
- «Sinto-me culpado.»
O que podemos fazer para lidar com um narcisista? Muitas são as ferramentas apresentadas no livro, uma delas é o “Zero contacto”.
«Zero contacto»
Muitas pessoas questionam-me sobre a possibilidade de «zero contacto». O meu parecer é simples: Se houver qualquer possibilidade de cortar completamente o contacto com um narcisista, faça-o.
A sua saúde mental dificilmente melhorará se mantiver uma relação com um narcisista, por isso, se houver alguma possibilidade de cortar esse contacto, faça-o. Pode haver algum tipo de efeito colateral ou «ressaca» ao cortar o contacto, e talvez até um processo de luto, mas pode usar as sugestões apresentadas ao longo deste livro para continuar a focar a atenção no seu autocuidado e no que precisa para recuperar e ultrapassar tudo isso. Concentre-se em desenvolver amizades e relações mais saudáveis com outras pessoas e desfrute dos seus interesses e ocupações. Com o tempo, tudo se torna mais fácil e, em última análise, é a coisa mais saudável que pode fazer por si.
Vale a pena salientar que, se decidir cessar o contacto, ao fazê-lo, haverá um período em que a dinâmica da relação se altere. Ao cortar o contacto, está a recuperar o controlo.
A autora reforça mesmo a importância de se saber afastar, de manter mesmo um contacto inexistente, eu sei porque já passei por isso e é mesmo a melhor forma:
Se optar por «zero contacto», não estabeleça nenhum contacto. De todo. Deve ser consistente. Da mesma forma, a reação do narcisista é, não raras vezes, afastá-lo e insistir, mexericar e acreditar que essa foi uma escolha e uma decisão dele. Se for esse o caso, deixe que o faça. O que ele quer acreditar ou dizer está do lado do campo dele: é assunto dele, responsabilidade e escolha dele. O que o leitor (ou qualquer outra pessoa) quer acreditar ou dizer cabe-lhe a si decidir.
Deixe que o narcisista tenha a sua própria versão da realidade. Tentar mudar isso está fora do seu controlo e provavelmente só lhe trará angústia e sofrimento. Concentre-se em si e em seguir em frente.
Lembre-se que os narcisistas são essencialmente viciados em jogo. Em muitos aspetos, tal como um jogador, estão constantemente a fazer apostas sobre quem lhes pode trazer o melhor suprimento narcísico a cada momento. Além disso, também como um viciado em jogo, são viciados no ganho ocasional.
Sarah Davies traz uma observação muito interessante para conhecermos as nossas reações e limites, através do conceito da Janela de Tolerância:
A Janela de Tolerância
A Janela de Tolerância (Window of Tolerance ou WOT, em inglês) é um modelo de modulação do sistema nervoso central, originalmente cunhado por Daniel Siegel, médico psiquiatra e Professor Universitário de Psiquiatria, especializado em Trauma. Este modelo descreve os mecanismos reativos na ligação cérebro/corpo, em momentos de stress ou trauma, pondo em evidência a existência de um intervalo ótimo de reatividade no sistema nervoso central, designado por «Janela de Tolerância». Neste intervalo, há espaço para leves oscilações, altos e baixos, fluxos e refluxos, dependendo da atividade ou do nível de stress, embora normalmente sejamos capazes de nos manter dentro deste intervalo em que sentimos que está tudo bem. A nossa Janela de Tolerância é o intervalo no qual nos sentimos confortáveis, capazes de funcionar com as nossas melhores capacidades e no qual conseguimos tomar decisões.Em momentos de stress extremo, reatividade ou trauma, incluindo quando qualquer trauma não processado é reativado, tal como acontece com o abuso narcísico, a resposta do nosso sistema nervoso central desloca-se rapidamente para fora da nossa Janela de Tolerância. Ou aumenta e excede a Janela de Tolerância, provocando um estado de hiper-reatividade, ou diminui e fica muito abaixo da Janela de Tolerância, provocando um estado de hipo-reatividade.
E dá-nos, ao longo do livro, vários exercícios e momentos de reflexão:
REFLEXÃO
- O que quero agradecer hoje?
- O que há a agradecer nas minhas experiências?
- O que valorizo em mim hoje?
- Qual é a sensação de o fazer?
- O que noto depois de praticar isto diariamente durante algumas semanas ou meses?
O que este livro me trouxe
Gostei muito deste livro, foi algo a ler com tranquilidade e muita atenção. Acho muito interessante perceber que há narcisistas a chamar às suas vítimas “narcisistas” e como é tão importante sabermos reconhecer estes padrões para não nos deixarmos mais afetar por eles. O livro é bastante amplo, ajuda a compreender os problemas que vêm de família e de relações interpessoais. Acredito ser uma lufada de ar fresco na compreensão e também num caminho para uma vida mais pacífica e feliz.
Lê um excerto aqui…
Lê mais sobre o livro e a autora no site da Penguin…
«Se já foi vítima de um verdadeiro narcisista, não precisa do TikTok: precisa de uma fonte de conhecimento fiável e séria como este livro.»
Sunday Times
Conhece Sarah Davies
Sarah Davies é uma psicóloga certificada e terapeuta especializada em trauma. Com formação em saúde mental numa variedade de abordagens terapêuticas, especializou-se, desde 2013, no tratamento de abuso narcísico, codependência, stress, ansiedade e trauma. Além do seu trabalho como psicóloga na sua clínica em Londres, também escreve sobre estes temas para o Guardian, Daily Mail e Cosmopolitan, entre outros. Mantém um forte compromisso em oferecer uma abordagem holística, prática e pragmática à saúde mental e ao bem-estar emocional. É ainda autora de Raised by Narcissists: How to Handle Your Difficult, Toxic and Abusive Parents (2024).




