Ler à Sexta – O Sentido Interior, de Caroline Williams
“Em teoria, se se habituar a ouvir o batimento do seu coração nas várias situações em que se sente seguro, isso deve gerar um conhecimento incorporado de que as alterações no ritmo cardíaco e respiratório são normais — e tem-porárias. A vantagem de manter a atenção focada nestes sinais à medida que eles vão diminuindo é que isso permite perceber qual é a sensação quando o coração, os pulmões e os músculos retomam o seu estado normal. E parece fun-cionar: depois de se submeterem aos estudos de Garfinkel, os participantes afirmaram sentir-se mais aptos a identificarem o seu ritmo cardíaco quando este aumentava e que esse conhecimento era suficiente para interromper a espiral de ansiedade. Manter a atenção também os ajudou a sentir que controlavam a sua reação ao stress — e um ano depois ainda sentiam os benefícios. Curiosamente, depois de adquirirem uma maior «precisão» na identificação dos sinais do coração e dos pulmões, todos referiram reconhecê-los com menos frequência. Garfinkel especula que isso pode significar que, depois de aprendermos que uma alteração no ritmo cardíaco pode não significar necessariamente uma urgência, é menos provável que pequenas variações sejam amplificadas na consciência e experienciadas como ansiedade.”
Olá e bem-vindo a mais um Ler à Sexta, hoje apresento-te O Sentido Interior, um brilhante livro sobre um dos mais importantes sentidos que temos, pelas palavras, vivências e estudos da Jornalista Caroline Williams.
O Sentido Interior, de Caroline Williams
A interoceção é um dos nossos sentidos mais importantes – e misteriosos. É a forma como os nossos corpos dizem ao cérebro o que estamos a sentir – quando temos fome, quando temos frio, como devemos reagir ao stress e ao pânico. Em “O Sentido Interior”, Caroline Williams revela um campo que está prestes a revolucionar a saúde e explora novas técnicas inovadoras que podem melhorar o nosso bem-estar mental e físico. Ela conhece cientistas que mapeiam o sistema nervoso, investigadores neurodivergentes que trabalham para melhorar as suas capacidades de interoceção e profissionais de saúde que investigam como este sentido interior pode orientar novos tratamentos para condições comuns e difíceis de tratar que afetam a mente, o corpo ou ambos. Combinando ciência, medicina, mindfulness e fisioterapia, “O Sentido Interior” é o primeiro livro a levar este novo e entusiasmante campo da medicina ao público em geral.
Ao longo do livro, a autora explora a nossa história do sentir e dos estudos científicos que têm vindo a ser feitos para melhor nos conhecermos.
Sentir o futuro
A solução para o desafio da complexidade crescente foi engenhosa, mas não isenta de consequências. O cérebro deu aos animais a capacidade de ultrapassar o simples ciclo de sentir e responder; passaram a poder aprender e a usar as lições do passado para uma previsão informada sobre o que provavelmente iria acontecer em seguida. Mesmo nos cérebros mais primitivos e simples, ter grupos de neurónios reunidos num único local tornou inevitável que, além de enviarem mensagens pelo corpo, eles se ligassem uns aos outros e partilhassem informação. Isso permitiu que os animais se adaptassem a ameaças e oportunidades — não apenas rapidamente, mas muitas vezes antes mesmo de elas acontecerem. Esta versão flexível da homeostasia chama-se alostase, que significa «estabilidade através da mudança», e que é, no que diz respeito às nossas vidas, uma bênção ambígua. Por um lado, dotou-nos de uma notável capacidade de adaptação a ambientes complexos, permitindo-nos antecipar e preparar respostas eficazes, evitando grandes desvios face ao rumo pretendido. Por outro, faz-nos gastar tempo e energia na adaptação a situações que podem nunca acontecer, o que implica mudanças no corpo e na mente que nem sempre são necessárias ou saudáveis. Quando os desafios continuam a surgir, sejam eles reais ou imaginários, essa constante previsão e adaptação pode deixar de ser uma estratégia de poupança de energia para começar a sobrecarregar os recursos do corpo. E é por isso, em suma, que o stress é tão desgastante — e tão prejudicial à saúde a longo prazo.
E quais as partes do nosso corpo que são muito importantes neste conceito da interoceção?
Linhas de investigação
Segundo a neurocientista Soyoung Park, existe uma palavra que resume na perfeição a ligação entre o corpo e o cérebro. E a palavra é, afirmou Park numa conferência recente sobre investigação em emoções, pescoço. A afirmação originou uma gargalhada, porque, como toda a gente presente sabia, o assunto é bem mais complexo. De facto, outro cientista que conheci enquanto pesquisava para este capítulo sugeriu-me que saltasse os pormenores. Outro ainda que os enterrasse algures na secção de notas. Porém, depois de ter passado muitas horas a vasculhar estudos anatómicos, continuo a pensar que vale a pena apresentar brevemente o mapa básico — quanto mais não seja para mostrar que a ligação entre o corpo e a mente não é um conceito vago, mas algo muito real. O ponto de partida óbvio são as três principais vias de comunicação entre o corpo e o cérebro. A primeira é o nervo vago, que liga o cérebro aos principais órgãos e vasos sanguíneos do corpo num movimento bidirecional. Ele percorre um caminho sinuoso pelo corpo, ramificando-se várias vezes, aparentemente sem se preocupar com linhas retas ou organização. Daí o seu nome: «vagus», a palavra latina para «errante». Depois, há os nervos sensoriais da espinal medula, que seguem um caminho mais direto pelo centro do corpo. Alguns desses nervos (2 por cento do total) comunicam informações dos órgãos, mas os restantes enviam informação de zonas mais distantes: os músculos e os tecidos conjuntivos, como a pele, a fáscia e a gordura. Estes nervos alimentam feixes nervosos, chamados gânglios da raiz dorsal, que contêm os corpos celulares dos nervos e estão localizados ao lado da espinal medula. Em seguida, a fibra nervosa percorre os espaços entre as vértebras e sobe pela parte de trás da espinal medula até ao cérebro. Por último, existe uma via mais lenta baseada nos vasos sanguíneos para as mensagens químicas e hormonais. Estas mensagens percorrem um caminho mais longo pelo corpo, passando em algum momento pelo cérebro. A maior parte do que é transportado pelo sangue segue o seu curso dire-tamente; a maioria do cérebro está protegida pela barreira hematoencefálica, que apenas permite a entrada de algumas moléculas previamente aprovadas. As exceções notáveis incluem um pequeno grupo de regiões do cérebro chamadas órgáos circunventriculares. Estas regiões estão mais abertas ao mundo exterior e especializaram-se na captação de sinais sensoriais presentes no sangue. Qualquer sinal urgente transportado pelo sangue é detetado em pontos de verificação ao longo do percurso e pode ser desviado para a via rápida do sistema nervoso. Todas as vias conduzem ao mesmo ponto — o tronco cerebral. Como o nome indica, o tronco cerebral assemelha-se a um caule que emerge na base do cérebro. Este é o primeiro centro de processamento interocetivo e estação de retransmissão, e um ponto crucial onde as atualizações de baixo para cima interagem com as previsões do cérebro de cima para baixo. Antes de aprofundarmos o conhecimento do cérebro, há uma questão importante sobre as vias abaixo do pescoço que é preciso referir – sobretudo devido à sua relevância cada vez maior da indústria do bem-estar.
O que este livro me trouxe
Interoceção é o receber mensagens do nosso corpo… e como desenvolvemos o saber escutar? Gosto sempre de aprofundar a forma como o nosso corpo sente, como isso se interconecta com os nossos conceitos espirituais e como, na verdade, tudo está mais interligado e é mais real do que muitas vezes se julga. Na verdade, a ciência tem vindo a aproximar-se daquilo que é o nosso sentir. Mesmo as questões relacionadas com a homeostasia e muito mais, são abordadas neste livro. É um livro técnico, mas pleno de saber que vale a pena ter e aprofundar.
Desejo que, de alguma forma, te possa ajudar a ter uma vida mais pacífica e feliz…
Lê um excerto do livro aqui…
Podes ler mais sobre o livro e a autora, no site da Penguin…
Conhece Caroline Williams
Caroline Williams é jornalista e editora de ciência da revista New Scientist. Licenciou-se em Ciências Biológicas e terminou o mestrado em Comunicação de Ciência. Conta também com artigos publicados no Guardian, The Boston Globe, BBC Future, BBC Earth, entre outros. É autora de mais dois livros: Override (2018) e Move! (2022) — este último eleito Livro do Ano pela New Scientist.




