Ler à Sexta – A Arte de Amar, de Erich Fromm
No que diz respeito à arte de amar, isto significa que, já que o amor depende de uma certa ausência de narcisismo, ele implica o desenvolvimento da humildade, da objetividade e da razão. Toda a nossa vida deve ser dedicada a este objetivo. A humildade e a objetividade são indivisíveis, tal como o amor. Não posso ser verdadeiramente objetivo em relação à minha família se não o puder ser em relação a um estranho, e vice- -versa. Se quero aprender a arte de amar, devo tentar ser objetivo em qualquer situação e reparar naqueles casos em que não consigo sê-lo. Devo tentar ver a diferença entre a minha imagem de uma pessoa e do seu comportamento, distorcida pelo meu narcisismo, e a realidade da pessoa tal como ela é independentemente dos meus interesses, das minhas necessidades e dos meus temores. Ser capaz de ser objetivo e racional é meio caminho andado para aprender a amar; mas devemos ter esta capacidade em relação a todas as pessoas com quem nos cruzamos. Quem quiser reservar a sua objetividade para a pessoa amada e pensar que pode passar sem ela na sua relação com todas as outras pessoas, depressa verá que não consegue nem uma coisa nem outra.
Bem-vindo a mais um Ler à Sexta, desta vez trago-te A Arte de Amar, do psicoanalista Erich Fromm.
A Arte de Amar, de Erich Fromm
Ao longo da Arte de Amar, Erich Fromm, desenvolve um conjunto de reflexões que vão ao encontro das teorias presentes na sua atualidade, assim como da sua própria experiência de vida que o levou a fugir da Alemanha e procurar refúgio nos Estados Unidos da América. O amor não é apenas de um para outro, mas vai bem mais além disso. Da bíblia a Freud, da construção pessoal à social, Erich Fromm desvenda A Arte de Amar.
O ser humano é dotado de razão, ele é a vida consciente de si mesma; ele tem consciência de si mesmo, dos seus semelhantes do seu passado e das possibilidades do seu futuro. Esta consciência de si como sendo uma entidade separada, a consciência do seu curto tempo de vida, do facto de nascer sem o querer e de morrer contra a sua vontade, de que morrerá antes daqueles que ama, ou de que eles morrerão antes dele, a consciência da sua solidão e do seu isolamento, de estar indefeso perante as forças da natureza e da sociedade, tudo isto faz da sua existência separada e descontinua uma insustentável prisão. O Homem enlouqueceria se não se pudesse libertar desta Prisão e estender a mão, unir-se, de alguma forma, às outras pessoas, ao mundo exterior. A experiência da separação produz ansiedade; ela é, na verdade, a raiz de toda a ansiedade. Ser separado significa estar isolado, incapaz de usar os dons humanos. Logo, ser separado significa ser indefeso, incapaz de lidar com o mundo – com objetos e com pessoas – ativamente; significa que o mundo me pode invadir sem que eu possa reagir. Assim sendo, a separação é a causa de uma intensa ansiedade. Além disso, causa vergonha e uma sensação de culpa.
No ocidente, temos muito o conceito de Amor Incondicional, do dar sem esperar receber, mas esta visão de Eric Fromm traz uma absoluta luz e claridade que nos ajuda a ir além do alimentar de uma crença que tantas vezes traz sofrimento.
A esfera mais importante da oferta, contudo, não é a dos bens materiais, mas a do reino especificamente humano. O que é que uma pessoa dá a outra? Dá-se a si mesma, dá o bem mais precioso que tem – a sua vida. Isto não quer necessariamente dizer que sacrifique a sua vida por outrem, mas que dá daquilo que está vivo em si: dá-lhe a sua alegria, o seu interesse, a sua compreensão, os seus conhecimentos, o seu humor, a sua alegria – todas as expressões e manifestações daquilo que está vivo em si. Dando assim da sua vida, enriquece a outra pessoa, aumentando a vitalidade dela por estar em contacto com a sua própria vitalidade. O indivíduo não dá para vir a receber; dar é em si uma grande alegria. Mas, ao dar, ele não consegue deixar de fazer nascer algo na outra pessoa, e isso que nasce reflete-se nele; na verdadeira dádiva, não se pode evitar receber de volta aquilo que se dá. Dar implica também fazer da outra pessoa um dador e ambos partilham a alegria daquilo que fizeram nascer. No ato de dar há algo que nasce e ambas as pessoas envolvidas estão gratas pela vida que nasce. Especificamente, em relação ao amor, isto quer dizer que o amor é uma força que produz amor; a impotência é uma incapacidade de produzir amor. Este pensamento foi expresso de uma forma muito bela por Marx: «Considerem», disse ele, «o homem como homem e a sua relação com o mundo como uma relação humana, então em troca do amor só se receberá amor e em troca da confiança, mais confiança, etc. Quem quiser apreciar a arte terá de receber treino estético; se quiser influenciar outras pessoas, terá de ser capaz de cultivar e estimular a sua influência sobre os outros.
E, segundo Eric Fromm, o que é o amor autêntico, a sua relação com o outro e com os outros?
O amor, em princípio, é indivisível no que diz respeito à relação entre os «objetos» e o nosso próprio ser. O amor autêntico é uma expressão de produtividade e implica cuidado, respeito, responsabilidade e conhecimento. Não é um «afeto» no sentido de se ser afetado por alguém, mas antes um esforço ativo pelo desenvolvimento e pela felicidade da pessoa amada, com base na nossa própria capacidade de amar. Amar alguém é a atualização e a concentração do poder de amar. A afirmação básica contida no amor dirige-se à pessoa amada, vista como uma encarnação das qualidades essencialmente humanas. Amar uma pessoa implica amar a humanidade como tal.
O que este livro me trouxe
Acredito que é um tema que deve ser estudado, aprofundado, melhorado e vivido até ao fim da vida. Apesar de ser um livro escrito na década de 50, com todas as influências culturais e sociais da época, é um livro que toca nos temas atuais e nas dores que muitos sentem. Creio que estas últimas palavras definem tudo o que senti “Para que o Homem seja capaz de amar, ele deve ter primazia. A maquinaria económica deve servir o ser humano, não deve ser este a servir a economia”…
“Ter fé na possibilidade do amor como um fenómeno social e não como um fenómeno individual de exceção é uma fé racional baseada na intuição daquilo que é a própria natureza humana”.
Este é um livro que nos faz refletir nos nossos conceitos e atitudes, mas também nos do próprio tecido social.
Podes ler um excerto do livro aqui…
Podes ler mais sobre o livro e o autor no site da Pergaminho Editora
Conhece Erich Fromm
Erich Fromm nasceu em 1900, em Frankfurt, no seio de uma família judaica ortodoxa. Formou-se em Psicologia e Sociologia nas universidades de Frankfurt e de Munique, e obteve o seu Doutoramento na Universidade de Heidelberg, em 1922. Começou a praticar Psicanálise no Instituto Psicanalítico de Berlim e esteve também ligado ao Instituto de Investigação de Frankfurt, onde contactou com Herbert Marcuse e Thomas Adorno. Em 1933, com a chegada ao poder do Partido Nazi, Fromm fugiu da Alemanha e refugiou-se nos Estados Unidos, tendo-se mais tarde tornado cidadão americano. Ensinou em diversas universidades, entre as quais Columbia, Yale e a Universidade de Nova Iorque. A devastação das duas guerras mundiais tocou-o profundamente e durante a Guerra Fria opôs-se marcadamente à corrida ao armamento, tendo ajudado, em 1957, a fundar o National Commitee for a Sane Nuclear Policy.
Morreu na Suíça, em 1980, a escassos dias do seu octogésimo aniversário.




