Se só alguns são especiais, o que são os outros? Se todos somos especiais, o que somos?

Algumas características como a empatia, o olhar para dentro e a intuição podem levar-nos a sentir que estamos deslocados do habitual na sociedade. A uns traz a tristeza do isolamento a outros uma sensação de ser especial. Mas como levar um caminho equilibrado, sem dor para nós e para os outros?

Saber viver e estar, reconhecer que todos estamos por igual

Quando olhamos para as folhas de um plátano, reconhecemos que todas são iguais. Quando olhamos mais perto, percebemos que cada uma delas é distinta, apesar de semelhante.

A natureza traz-nos lições muito claras para a nossa vida – tudo tem um propósito e papel na vida, tudo é distinto apesar de semelhante, cada parte completa um todo.

Quando determinadas características nos fazem sentir mais atentos à realidade, a ver claramente aquilo que está no nosso exterior e também no interior, podemos sentir que remamos contra a maré, ou que os outros não nos compreendem. Por vezes isso faz-nos sentir tremendamente sozinhos, mas será que a vida pede essa solidão?

As palavras do Ven. Mestre Hsing Yun, no seu livro Ver Claramente, trazem-nos algumas indicações:

Os mais cultivados entre nós são aqueles que podem praticar mesmo no meio da multidão. Temos uma admiração especial por aqueles que praticam o Dharma no meio da agitação da vida. Ao longo da história, existem muitos exemplos para aprender. 

O poeta chinês Tao Yuanming escreveu: “Vive entre o povo, mas não ouças a agitação de cavalos e carruagens”. No seu sutra com o mesmo nome, é dito do leigo Vimalarkirti: “Embora seja um leigo, ele não está apegado aos três reinos. Embora casado, ele sempre cultiva a pureza”. 

O Mestre de Chan Ikkyu, um respeitado monge no seu tempo, foi outro bom exemplo. Uma vez, enquanto viajava com o seu discípulo, ele viu uma mulher na margem de um rio com grande correnteza, imaginando como ela atravessaria para o outro lado. O Mestre de Chan Ikkyu ofereceu-se para carregá-la às costas. Nessa época no Japão, o contato físico entre um monge e uma mulher era estritamente proibido. O seu discípulo, horrorizado com o fato do seu professor ter contato com uma mulher, ficou incomodado por um mês inteiro. Quando o Ikkyu descobriu o que estava a incomodar o aluno, disse: “Eu já me esqueci disso. Eu só carreguei a mulher, mas tu carrega-la na sua mente há um mês inteiro”. Quando vemos a ilusão do mundo fenomenal e não nos apegamos a nada, estamos a viver transcendentemente.

Ven. Mestre Hsing Yun

Ou seja, qualquer que seja o teu sentido de crescimento, não abandones o mundo, não te isoles, mas permanece nele para que o possas auxiliar e ao mesmo tempo continuar a aprender. Se abandonares o mundo poderás sentir que estás desconetado e quem sabe, sentires ser mais importante que todos os outros. Observa o Plátano e as suas folhas… haverá alguma que se considera melhor que a outra? Todas cumprem a sua função, apesar de serem diferentes e de estarem em posições diferentes.

Mas será que determinadas características que desenvolvem o nosso sentido espiritual apenas são “capacidades” de alguns?

O Mestre Usui dizia que “O Treino, de acordo com a lei natural deste mundo, desenvolve a espiritualidade humana”. Então a espiritualidade, como tudo na vida, requer treino e não é apenas algo que acontece por acontecer. O que precisa ser treinado?

A forma como pensamos, sentimos e agimos.

Estar presente no mundo, na vida quotidiana é o grande treino pelo qual crescemos. Afastamo-nos para recuperar forças e refletir, mas regressamos para validar, testar e praticar. Como dizia o Mestre Usui… Só por hoje. Um dia de cada vez, presente naquilo que se faz.

Todos somos especiais, cada um com as suas próprias condições.

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