Combate e prevenção da violência doméstica segundo o Budismo

“A verdadeira doença, é a doença da mente”. Este aforismo do Ven. Mestre Hsing Yun, 48º Patriarca da Escola Chan do Budismo Chinês, identifica claramente de onde as grandes questões sobre a violência doméstica surgem.

A tomada de consciência que os ensinamentos de Buda nos trazem, permitem-nos compreender atitudes que são fulcrais para erradicar a violência doméstica e promover a igualdade e harmonia entre todos.

Ninguém gosta da violência por si, pois esta é contrária à vida, mas a violência psicológica, o abuso verbal, continua a encontrar as suas vítimas, independentemente da sua nacionalidade, cultura, classe social, raça ou comunidade. Não só a violência é de um conjugue para o outro, como também o observar da mesma traumatiza os filhos, ou familiares presentes. Assim, a violência se espalha na sociedade e a todos nos contamina, direta e indiretamente.

Mas como poderá ser resolvida a questão da violência doméstica?

O cerne desta questão está na necessidade de cada membro da família aprender a amar-se de uma forma consistente, generosa, capaz de perdoar, respeitar e sendo tolerante, pois apenas cultivando a harmonia é que uma família consegue alcançar uma vida pacífica e feliz.

A família é uma peça fundamental na sociedade e deve ter um ambiente seguro e confortável para os seus membros. Por isso mesmo, a tradição Budista enfatiza a necessidade de marido e mulher demonstrarem um respeito e amor mútuo.

Também nos Sutras Budistas podemos encontrar ensinamentos práticos e universais para o cultivo deste respeito e amor como o Sutra Srigalaka, respeitante aos homens, e o Sutra de Yuye para as mulheres.

Naturalmente que têm histórias que são contemporâneas da época de Buda, de há mais de 2500 anos e como tal, podem parecer deslocadas da nossa realidade atual, no entanto os fundamentos da necessidade de respeito e amor para evitar a violência doméstica são ensinamentos intemporais.

 O Budismo sempre reforça a necessidade de cultivar a harmonia, mas quando esta é de todo impossível, pois a mente continua apegada aos três venenos da raiva, ganância e ignorância, então surge o velho ditado “deixar a água voltar à água e o fogo a ser fogo”, compreendendo que as enormes diferenças de personalidade podem tornar impossível a vida comum. No entanto, a separação não significa que o respeito e amor não possa surgir.

Sobre a igualdade entre homens e mulheres, podemos ler no Sutra Avatamsaka que “Todos os Seres Sencientes são iguais”, assim como no Grande Tratado da Perfeição da Grande Sabedoria, “Desde o mais elevado de todos os Budas até ao mais pequeno animal, todos são iguais e não existem diferenças entre eles”.

Um mundo de igualdade é um mundo verdadeiro e belo. Uma das premissas dos ensinamentos de Buda é que “Todos temos uma natureza de Buda”, ou seja, todos podemos ser despertos e, como tal, se todos temos a mesma natureza, não há lugar para um ser mais que outro, assim homem não é mais que mulher, ou mulher não é mais do que homem, todos estão por igual na mesma natureza.

A violência doméstica a desigualdade entre os seres sencientes é algo de abominável, mas a sabedoria do Budismo pede-nos para aprendermos com as lições da vida, para que possamos tornar o mau em bom, algo que é considerado o “melhorar as condições negativas”. Por exemplo, uma flor de lótus que é algo de muito belo, alimenta-se e cresce num pântano de águas sujas. Também nós, poderemos crescer mais resilientes e saudáveis, apesar das más experiências da vida. Este conceito é algo que se pode encontrar no Sutra Vimalakirti, “se não mergulharmos no oceano profundo, nunca alcançaremos aquela pérola valiosa. Se não mergulharmos no grande oceano das aflições humanas, nunca iremos alcançar a suprema sabedoria”.

Cada pessoa tem condições que são próprias a ela mesma, homens podem ser compassivos, mulheres podem ser compassivos, tudo pode ser treinado para que a mente seja correta.

 Sobre o cultivo do amor e afeto, tão necessários na sociedade, eles começam com a constituição de um lar, de uma família. Amamos os nossos cônjuges, os nossos filhos e os nossos irmãos. A partir daí, estendemos o nosso amor para os nossos parentes e amigos. E sem mais tardar, o nosso amor abrangerá todos os seres humanos e todos os seres em geral. Um amor possessivo amadurece e torna-se num amor em que há algo para oferecer, e finalmente torna-se num amor iluminado. Este tipo de amor figura naquele tipo de grande compaixão que pode ser resumida por este ditado, “Por mais que deseje que todos os seres sencientes estejam livres do sofrimento, eu nunca encontraria prazer se fosse o único a alcançá-lo.” O Amor é como a água. Por um lado pode nutrir as nossas vidas; por outro, também nos pode afogar. Assim, se não soubermos amar em condições, o amor pode nos trazer grandes problemas e arruinar as nossas vidas. Muitas vezes, a violência verbal, psicológica, doméstica, surge até de um amor, mas um amor que está mal construído.

Como podemos nós amar em condições? Consideremos as seguintes guias:

  1. Amar inteligentemente – Devemos usar a sabedoria para purificar o nosso amor.
  2. Amar com compaixão – Devemos usar a compaixão para manifestar o nosso amor.
  3. Amar de acordo com o Dharma – Devemos usar o Dharma para guiar o nosso amor.
  4. Amar moralmente – Devemos usar a moral e a ética para guiar o nosso amor.

O Amor é algo de muito importante nas nossas vidas. Como poderemos nós amar desinteressadamente e oferecer os nossos sentimentos a todos? Como poderemos nós transformar um amor possessivo num amor que se concentra em dar algo a alguém, e mais tarde, sentir um amor pelo Dharma? Como purificar o nosso amor que opera segundo um critério da discriminação para outro está envolto num critério grande compaixão?

Como amar segundo as intenções deste ditado, “Cultivar a nossa bondade sem condições, e fundar a nossa compaixão no uno”? Estas são questões muito importantes a que cabe a cada um de nós ponderar e refletir. Quando oferecemos o nosso amor e afeto para servir a comunidade, aí as nossas vidas ficarão muito mais preenchidas e realizadas.

A violência doméstica não tem mais lugar quando cultivamos respeito e amor. O respeito e amor começa por nós próprios.

João Magalhães

Bibliografia:

  • Sobre o Amor e Afeto, Ven. Mestre Hsing Yun, BLP Publishing, 2010
  • A perspetiva budista dos direitos das mulheres, Ven. Mestre Hsing Yun, BLP Publishing, 2012
  • Budismo e psicologia, Ven. Mestre Hsing Yun, BLP Publishing.

No livro Ser Bom, Ética Budista para o Dia a Dia poderás encontrar várias reflexões e indicações do Ven. Mestre Hsing Yun para te auxiliar sobre este tema da violência doméstica e igualdade.

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  1. Maria Guida Rodrigues

    Obrigada João.
    Esta leitura matinal,fez-me tão bem!
    Como sempre todas!
    Grata 🙏