O Sutra Sallatha – o ensinamento da flecha

A compreensão do sofrimento humano é um dos pilares do Budismo. Compreender como encarar o sofrimento pode ser a diferença entre uma atitude sábia ou uma observação à luz do desconhecimento. Sabedoria e ignorância podem jogar um papel muito importante também na resolução da dor.

Buda tem um conselho para nós sobre a dor e ele está inscrito num dos seus muitos ensinamentos – o Sutra Sallatha.

O Sutra Sallata

Monges, uma pessoa comum sem instrução, sente sentimentos de prazer, sentimentos de dor, sentimentos de nem-prazer-nem-dor. Um discípulo bem instruído, da classe nobre, também sente sentimentos de prazer, sentimentos de dor, sentimentos de nem-prazer-nem-dor. Então, que diferença, que distinção, que fator distintivo existe entre o discípulo bem instruído dos nobres e a pessoa comum não instruída?

Para nós, Senhor, os ensinamentos têm o Abençoado (Buda) como a sua raiz, o seu guia e o seu árbitro. Seria bom que o Abençoado explicasse o significado desta declaração. Tendo ouvido isso do Abençoado, os monges irão lembrar-se disso.

Nesse caso, monges, escutem e prestem muita atenção. Eu irei falar.

“Como disseres, senhor”, os monges responderam.

O Abençoado disse: “Quando tocado por um sentimento de dor, a pessoa comum, sem instrução, sofre, aflige-se e lamenta-se, bate no peito, fica perturbada. Então ela sente duas dores, a física e a mental. Assim como se fossem atirar a um homem uma flecha e, logo de seguida, atirassem nele outra, para que sentisse as dores de duas flechas. Da mesma forma, quando tocado por um sentimento de dor, pessoa comum, não instruída, sofre, aflige-se e lamenta-se, bate no peito, fica perturbado, por isso sente duas dores – a física e a mental.

Como ele é tocado por aquele sentimento doloroso, ele é resistente. Qualquer obsessão por resistência em relação àquele sentimento doloroso o obceca. Tocado por aquele sentimento doloroso, ele deleita-se no prazer sensual. Por que? Porque a pessoa comum, não instruída, não discerne qualquer fuga do sentimento doloroso, além do prazer sensual. Enquanto ele se delicia com o prazer sensual, qualquer paixão obsessiva em relação àquele sentimento de prazer o obsessa. Ele não discerne, como na verdade está presente, a originação, o desaparecimento, a atração, o recuo ou a fuga desse sentimento: como a pessoa não percebe a originação, o desaparecimento, a atração, o recuo ou a fuga desse sentimento, então qualquer obsessão por ignorância em relação àquele sentimento de nem-prazer-nem-dor, o obceca.

Sentindo uma sensação de prazer, ele sente como se estivesse unido a ela. Sentindo uma sensação de dor, ele sente como se estivesse unido a ela. Sentindo um sentimento de nem-prazer-nem-dor, ele sente como se estivesse unido a tal. Assim é chamada de pessoa comum, não instruída, que se une com o nascimento, o envelhecimento e a morte, com tristezas, lamentações, dores, aflições e desesperos. Ela está unida, digo-lhe, ao sofrimento e stress.

Agora, o discípulo nobre, bem instruído, quando tocado com um sentimento de dor, não se entristece, aflige ou lamenta, não bate no peito nem fica perturbado. Então ele sente uma dor – física, mas não mental. Exatamente como se fossem atirar a um homem uma flecha e, logo depois, não atirar nele outra, para que ele sentisse a dor de apenas uma flecha, da mesma forma, quando tocado por um sentimento de dor, o discípulo nobre, bem instruído, não se entristece, aflige ou lamenta, não bate no peito nem fica perturbado, sente uma dor: física, mas não mental.

Ao ser tocado por esse sentimento doloroso, ele não é resistente. Nenhuma obsessão por resistência em relação àquele sentimento doloroso o obceca. Tocado por aquele sentimento doloroso, ele não se deleita no prazer sensual. Por que? Porque o discípulo nobre, bem instruído, discerne uma fuga do sentimento doloroso para além do prazer sensual, pois não se deleita no prazer sensual, nenhuma obsessão por paixão em relação àquele sentimento de prazer o obceca, ele discerne, como na verdade está presente, originação, falecimento, fascínio, desvantagem e fuga desse sentimento. Quando ele discerne a originação, o desaparecimento, a atração, o recuo e a fuga desse sentimento, não há obsessão por ignorância em relação àquele sentimento de nem-prazer-nem-dor o obceca.

Sentindo uma sensação de prazer, ele sente que se separou dela. Sentindo um sentimento de dor, ele sente-se disjunto. Sentindo um sentimento de não-prazer-nem-dor, ele percebe que é separado dele. é chamado de um discípulo bem instruído dos nobres, separado do nascimento, do envelhecimento e da morte, das tristezas, lamentações, dores, aflições e desesperos. Ele está disjuntivo, digo-lhe, do sofrimento e do stress.

Essa é a diferença, essa é a distinção, esse é o fator distintivo entre o discípulo bem instruído dos nobres e a pessoa comum sem instrução.

A pessoa perspicaz, culta,
não sente uma sensação mental de prazer ou dor:
Esta é a diferença na habilidade
entre o sábio e a pessoa comum.

Para uma pessoa instruída
que já aprofundou o Dharma,
claramente vendo este mundo e o próximo,
as coisas desejáveis não lhe encantam a mente,
e as indesejáveis não fazem resistência.

A sua aceitação
e rejeição estão espalhadas,
foram para o seu fim
não existem.

Conhecendo um estado sem pó, sem tristeza,
ele discerne corretamente,
foi além, além ainda de se tornar,
foi para a margem longínqua.

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