Patrul Rinpoche “Conselhos de mim para mim mesmo”

Vajrasattva_abbeyPatrul Rinpoche, escreveu uma carta a si mesmo, dando os conselhos de uma vida. Para mim são autênticas pérolas de sabedoria, como por exemplo “Neste preciso momento, em que estás, Debaixo da magia da percepção errónea, Tens que ter atenção. Não te deixes levar por esta vida vazia e falsa.” e “Reflectindo sobre os ensinamentos, mesmo tendo-os escutado, Se eles não te vêm à mente quando são precisos, Qual o sentido de mais reflexão? Nenhum.”, terminando com “Se deixares ir tudo, Tudo, tudo… Esse é o verdadeiro objectivo!”.

Muito obrigado a NGAWANGANANDA pela introdução a esta verdadeira inspiração.

Vajrasattva, única deidade, Mestre,
Tu sentas-te num trono de lótus, de luz branca de lua cheia,
No desabrochar de cem pétalas, pleno de juventude.

Pensa em mim, Vajrasattva,
Tu que te manténs equânime dentro do universo manifestado;
Isto é Mahamudra, benção do pleno vazio.

Ouve lá, oh Patrul de mau carma,
Praticante da distracção.

Há eras que tu estás
Apanhado, entranhado e iludido pelas aparências.
Estás consciente disso? Estás?

Neste preciso momento, em que estás
Debaixo da magia da percepção errónea
Tens que ter atenção.
Não te deixes levar por esta vida vazia e falsa.

A tua mente devaneia
Tentando levar a cabo projectos sem utilidade:
É uma perda de tempo! Desiste!

Pensando sobre centenas de planos que queres executar,
Sem nunca ter tempo de os acabar,
Só sobrecarregas a tua mente.

Estás completamente distraído
Por todos esses projectos, que nunca mais acabam,
Mas que continuam a aparecer, como correntes de água.

Não sejas tolo, ao menos por uma vez:
Senta-te, simplesmente.

Ouvindo os ensinamentos, e tu já ouviste centenas deles,
Mas não tendo atingido o sentido profundo de nenhum deles,
Qual é o sentido de ouvir mais?

Reflectindo sobre os ensinamentos, mesmo tendo-os escutado,
Se eles não te vêm à mente quando são precisos,
Qual o sentido de mais reflexão?
Nenhum.

Meditando sobre o ensinamento,
Se a tua prática de meditação ainda não curou
Os estados obscuros da mente:
Esquece-a!

Já somaste quantos mantras fizeste
Sem ter conseguido a visualização do kyerim?
Podes ter conseguido as formas de deidades belas e claras
Mas não estás a pôr fim ao sujeito e ao objecto.
Podes catalogar o que aparece como sendo espíritos maus e fantasmas,
Mas não estás a treinar o fluxo da tua própria mente.

Sobre as tuas óptimas quatro sessões de prática de sadhana,
Tão meticulosamente arranjadas:
Esquece-as!

Quando estás com boa disposição,
A tua prática parece ter imensa claridade;
Mas não te podes relaxar nela.
Quando estás deprimido,
A tua prática é bastante estável,
Mas não tem qualquer brilho.
Quanto à compreensão,
Tentas forçar-te a um estado semelhante a rigpa,
Como se estivesses a atirar a um alvo!

Quando essas posições de yoga e práticas mantém a
tua mente estável,
Só à custa de a manterem estrangulada:
Esquece-as!

Dar altas conferências
Não faz nenhum bem ao fluxo da tua mente.
O caminho da razão analítica é preciso e acutilante:
Mas é mais desilusão, caca imprestável.
As instruções orais podem ser muito profundas,
Mas não se tu não as puseres em prática.

Ler e reler os textos do dharma
Só serve para ocupar a tua mente e fazer arder os olhos:
Esquece-os!

Bates o teu pequeno tambor damaru – ting, ting –
E a tua audiência fica deliciada a ouvi-lo.
Recitas palavras acerca de oferecer o teu corpo,
Mas ainda estás ternamente agarrado a ele.
Bates os teus pequenos cimbales -cling, cling –
Sem ter o propósito último na tua mente.

A todo este equipamento de prática do dharma,
Que parece tão atraente:
Esquece-o!

Neste momento, os estudantes estão todos a estudar arduamente,
Mas no fim não vão conseguir manter o ensinamento…

Hoje, parecem ter apanhado a ideia,
Mas, mais tarde, nem um rasto dela fica.
Mesmo se um deles conseguir apreender um pouco,
Raramente aplica o apreendido à sua própria conduta.

A todas estas elegantes disciplinas do dharma:
Esquece-as!

Este ano ele realmente preocupa-se contigo,
Para o ano já não será assim.
A princípio parece modesto;
Depois exalta-se e fica pomposo.
Quanto mais to o apaparicas e cuidas dele,
Mais ele se distancia de ti.

A estes queridos amigos
Que mostram faces tão sorridentes ao princípio:
Esquece-os!

O sorriso dela parece tão cheio de alegria,
Mas quem sabe se será realmente assim?
Por um momento de puro prazer,
São nove meses de dor mental.
Pode ser bom durante um mês,
Mas, mais cedo ou mais tarde, vai haver sarilho.

Às pessoas a chatearem-te, à tua mente embrulhada,
À senhora tua amiga:
Esquece-os!

Essas reuniões, sem fim, de conversa
São só apego e aversão:
É mais caca, sem utilidade.
Na altura parece um entretimento maravilhoso,
Mas, na realidade, só se está a espalhar histórias sobre os erros de outras pessoas.
A tua audiência parece estar a escutar polidamente,
Mas depois vão ficando embaraçados por ti.

Fala sem utilidade, que só te faz ficar com sede:
Esquece-a!

Dar lições sobre textos de meditação
Sem tu próprio teres ganho
Experiência pela prática,
É como recitar um manual de dança
E pensar que é o mesmo que, realmente, dançar.

As pessoas podem escutar-te com devoção,
Mas não é o mesmo que a coisa real.

Mais tarde ou mais cedo, quando as tuas próprias acções
Contradisserem os ensinamentos, vais sentir-te envergonhado.

Pronunciar só as palavras,
Dar explicações do dharma que soam tão eloquentes:
Esquece!

Quando não tens um texto a que te agarrar, anseias por ele;
Quando, finalmente, o obténs, mal olhas para ele…

Mesmo que o número de páginas seja pequeno,
É-te difícil arranjar tempo para as copiar todas.
Mesmo que tu copiasses todos os textos de dharma que existem,
Não ficarias satisfeito.

Copiar textos é uma perda de tempo
(a menos que recebas pagamento por isso…):
Portanto, esquece!

Hoje estão felizes;
Amanhã, furiosas.
Com os seus momentos altos e baixos,
As pessoas nunca estão satisfeitas.
Mesmo que sejam simpáticas,
Podem não te acorrer quando tu necessitas delas,
Desapontando-te ainda mais.

A toda essa polidez, a cultivar
Comportamento cortês:
Esquece-a!

Trabalho mundano e religioso
Pertence à esfera dos polidos.
Patrul, meu amigo, não é para ti!

Nunca repararam no que acontece sempre?
A um velho boi, depois de todo o trabalho de o pedir emprestado para ele prestar os seus serviços,
Parece não ter restado nenhum desejo,
Excepto para adormecer.

Sê também assim – sem desejo.

Somente dorme, come, mija e caga.
Não há mais nada que se tenha que fazer nesta vida.

Não te envolvas noutras coisas:
Elas não são o objectivo.

Mantêm um perfil comedido,
Dorme.

Neste triplo universo
Quando tu és mais modesto que a tua companhia
Deves tomar o assento mais baixo.

Se acontecer que tu sejas aquele que é superior,
Não fiques arrogante.

Não existe nenhuma necessidade absoluta de ter amigos íntimos;
Ficas melhor mantendo-te contigo mesmo.

Se não tiveres nenhuma obrigação mundana ou religiosa,
Não fiques a desejar obter uma!

Se deixares ir tudo,
Tudo, tudo…

Esse é o verdadeiro objectivo!

 

Nota do tradutor

Estes conselhos foram escritos pelo praticante Trime Lodro (Patrul Rinpoche) para o seu amigo íntimo Ahu Shri (Patrul Rinpoche), especificamente talhados para as suas capacidades.

Estes conselhos devem ser postos em prática.

Mesmo que tu não saibas praticar, deixa ir tudo – é o que eu realmente quero dizer. Mesmo que não sejas capaz de ser bem sucedido na tua prática do dharma, não fiques triste nem zangado.

Possa isto ser virtuoso.

Patrul Rinpoche (1808 – 1887) foi o mestre viajante de Dzogchen do Tibete Oriental do virar do século, amado pelo povo. Ficou conhecido como o vagabundo iluminado.

Tradução de Constance Wilkinson (para o inglês).

Muitas questões acerca do texto foram clarificadas pelas extremamente simpáticas explicações do Chogyal Namkhai Norbu Rinpoche, durante a sua estadia em Nova Iorque, e de acordo com as explicações detalhadas de Khenpo, Rigdzin Dorje do Nyingmapa Shedra, Bansbari, Kathmandu, Nepal.

Obrigado a Matthieu Ricard do Shechen Tennyi Dargyeling, e a Anne Burchardi do Marpa Institute of Translation pelos seus conselhos de modo a tornar esta tradução fiel quer à letra quer ao espírito do original Tibetano.

Todos os erros e interpretações incorrectas são do tradutor. Possa este poema, apesar das limitações da sua tradução, servir para benefício dos seres.

Bem hajam todos.  

4 thoughts on “Patrul Rinpoche “Conselhos de mim para mim mesmo””

  1. Angela Vêscovi

    🙂 sempre em sicronicidade com o Tao do Reiki. Patrul Rinpoche é como se fosse meu mentor, pois é considerado uma emanação de Shantideva a quem reverencio, com corpo, palavra e mente. Este ensinamento em forma de poesia me deixou inebriada: meu primeiro ensinamento e iniciação no Budismo foi de Vajarassatva. Vou guardar commuito carinho. Gratidão, e possam todos os seres se beneficiarem ao ser lido ou recitado este poema! _/\_

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